Santo, santo, santo é o senhor e o senhor e a senhora

Dia da ira! Dia em que o mundo
virará cinza,
como nos disseram David e Sibila

Que terror aí virá
quando o Juiz investigar
tudo meticulosamente.

O assombroso som da tuba
soará pelos sepulcros
e a todos convocará perante o trono.

A morte e a natureza espantar-se-ão
quando se erguerem as criaturas
em resposta ao Juiz.

Será então trazido o livro
onde tudo está contido
e o mundo será julgado.

(Dies Irae: uma tradução razoalvemente livre)

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Fui a mais uma missa de requiem. Este inverno tem havido muitas missas e funerais. Não sei se há mais do que é costume – talvez tenha chegado aquela fase do meu tempo em que os pais e as mães morrem – ou se é apenas um Inverno mais rigoroso, com estirpes mais virulentas.
A missa foi bonita. Não houve ira e o mundo não se dissolveu em cinza. Foi um dia bonito apesar da chuva. Desta vez não reprimi a reza como faço quase sempre que assisto a uma missa, uma espécie de objecção de consciência por não acreditar; parece hipócrita dizer “Pai nosso que estás no céu…” quando não creio que esteja. Mas desta vez deixei-me rezar o Pai Nosso e a Ave Maria, afinal sei-os de cor, sempre soube – os ritmos e as rimas da reza não se vão embora. Soube-me bem, também, uma espécie de alívio. Também chorei. A pessoa que morreu era uma boa pessoa. Chorou-se muito. Chorou-se uma felicidade cheia de tristeza. Chorou-se amor.
A minha admiração por pessoas felizes que fazem outros felizes não tem limites. É tão difícil, e ao mesmo tempo parece tão simples, ser e fazer feliz. As pessoas que fazem outras pessoas felizes são os verdadeiros santos porque são capazes do grande milagre: a felicidade. Não há outro. O resto é prestidigitação, magia, obra do diabo. A felicidade é um super-poder, uma espécie de emanação ansiolítica e anti-depressiva que alguns, muito poucos de nós, são capazes. Ao pé destas pessoas respira-se um ar limpo, puro, transparente: o Éter, o céu superior, o ar dos Deuses.
A felicidade é o grande milagre e a capacidade de a emanar a essência da santidade. As igrejas deviam ter capelas para as pessoas que fizeram as outras pessoas felizes: a capela da santa tia Teresa, a capela do santo padrinho Manuel, a capela do santo amigo João. O processo de canonização seria simples: bastariam umas três dúzias de pessoas a testemunhar, sob palavra de honra, que “Sempre que estava com ela o meu coração enchia-se de graça, de felicidade e eu sentia-me bem.” E pronto! A pessoa era logo ali santificada. O milagre? A felicidade dada a rodos e a todos. Há pessoas que são capazes de criar o céu na terra à sua volta. São poucas. São santos.

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu): “Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”
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7 respostas a Santo, santo, santo é o senhor e o senhor e a senhora

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Olha que texto tão bonito! Agora já sei qual era o texto que eu não consegui escrever e que resumiria o espírito do blog. É este.

    • Pedro Bidarra diz:

      Ora ora. Como diria qualquer chef, são os ingredientes que fazem a diferença, não é p cozinheiro: morte, felicidade, santos, missas, ateismo, nverno, céu e inferno, são bons ingredientes

  2. Mario diz:

    Gostei muito da reflexao. A medida que a vida avanca e nos aproximamos da carruagem da frente pensa-se mais na vida e na morte. Permita-me um abraco.

  3. Pedro Lupi Caetano diz:

    Muito bonito Pedro. A dúvida é a maior crença. Valham os amigos – Santos – que na missa de requiem nos fazem Crer. Aí, também rezamos o Pai Nosso, e a Avé Maria… e talvez um dia acreditaremos. É para isso que servem os amigos, Santos. Grande abraço.

  4. riVta diz:

    tão bonito Pedro

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