Será que também fui Dux?

Será que também fui Dux? Antes que me atirem pedras, digo já que sim, que, por um dia, usei um título, que nem eu nem ninguém levou a sério, de Presidente do Supremo Tribunal da Praxe. Mas, não me lixem, foi há 25 anos, e, até à data, nenhum dos então caloiros se queixou. Se houve jogos meios parvos? Houve, sim senhor. Se houve concurso de misses, com desfile e tudo? Houve sim senhor. Se os rapazinhos mais apessoados tiveram de se pôr de tronco nu? Tiveram, sim senhor, mas ainda hoje me agradecem as miúdas que sacaram à conta dos bíceps e peitorais que, orgulhosamente, exibiram. Se eu estava encapuçado e de toga, de martelo na mão, e, não fosse o negro que trazia vestido, podia passar por membro do Ku Klux Klan? É tudo verdade, sim senhor, mas juro, juro pelos cinco anos de duros sacrifícios que me custaram a licenciatura, que não houve cá comissões de praxe ou rituais iniciáticos, que tudo se limitou a um exercício de humor meio improvisado, e que os senhores que me acompanharam no julgamento a que os caloiros foram submetidos são, hoje, distintos e respeitáveis advogados da nossa praça. E juro, juro ainda com mais convicção que não há nada mais anti-estético, mais espanta-tesão, do que uma miúda vestida com os rigores de um traje académico, qualquer que ele seja. Chega? Estou absolvido? Posso ir em paz? Obrigado.

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.

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16 respostas a Será que também fui Dux?

  1. Mario diz:

    Aonde e que pensa que vai? va ja ao pe coxinho ate ao fundo da sala. Agora ladre. De ca o rosto para lhe desenhar uns bonecos. E umas borrifadelas de mau cheiro no cabelo. Agora dance. Va, faca la figuras de parvo para nos divertir. Porque? nao sei, porque nos apetece. Ja sei, e para o integrar. Toda a gente sabe que os jovens de 18 anos nao falam entre si. Tudo isto nao mata ninguem, e verdade, mas nao faz sentido nenhum. Nem por uma vez na vida.
    PS: fui praxado tranquilamente, era demasiado normal para sobressair, mas nunca fiz parte da comissao de praxe. Por opcao.

    • Diogo Leote diz:

      Caro Mário, as praxes em que participei – duas, uma como “vítima” e outra como “carrasco” – foram bem mais inocentes e inofensivas. Até os caloiros se divertiram, garanto-lhe.

  2. mónica diz:

    a sua consciência que o absolva (será q os caloiros praxados por si vêm aqui ler o seu acto de contrição? eheheh)

  3. Diogo Leote diz:

    Que venham, Mónica, só assim saberei se mereço a absolvição. Mas, na altura, a verdade é que me pareceram todos bem divertidos.

  4. Isso era inocência e uns copos. Continuasses tu a ser presidente, Diogo.

  5. A propósito de copos, faltou-me dizer que, numa festa lá mais para a noite no bar da faculdade, pusemos os caloiros, de copo na mão, a dançar e a cantar o Cocaine do Eric Clapton, acompanhando uma banda de altíssimo nível composta por alunos. No fundo, o que queríamos era praxar as altas hierarquias da Universidade Católica. Mas ninguém percebeu o lado subversivo da mensagem.

  6. Bruto da Silva diz:

    tudo tem o seu tempo: moda, contexto, tradição.

    mudam-se os tempos… quantas universidades? quantas faculdades? quantos cursos? quantos estudantes?quantas diversões, festas, festivais, sms, reality shows, redes sociais, … procissões?

    http://www.youtube.com/watch?v=c9pKhCYZEoQ

  7. Não teve esse azar, Mário. O meu curso é Direito.

  8. riVta diz:

    😛 tiveste muita graça
    ( agora e antes)

  9. Rita, só te dou um conselho: não brinques com um ex-Dux!

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