Um livro pequenino, uma vida grande

Eu abandono Roma
Os camponeses abandonam a terra
As andorinhas abandonam a minha aldeia
Os fiéis abandonam as igrejas
Os moleiros abandonam os moinhos
Os montanheses abandonam os montes
A graça de Deus abandona os homens
Alguém abandona tudo

Tonino Guerra in O Livro das Igrejas Abandonadas

Para Tonino Guerra

POEMA DO TEMPLO ABANDONADO
Do fulgor metálico da foice e do martelo,
nasceram as estrelas do céu vermelho, e o céu
escorreu e tingiu até as montanhas altas,
até os caminhos ainda de pó e cascos de cavalos
iguais à tua infância,
e chamaram-lhe revolução cultural:

Depois de regressar da cadeia,
a Mãe saía muito cedo, cheia da primeira luz,
e buscava entre as pedras e as ervas,
bagos, fios de nada que fervia,
e com esta colheita caída à revelia dos cestos
que por ali passavam às costas dos carregadores,
alimentava as suas Filhas dentro das portas esventradas
dos templos proibidos e quase abandonados –
de lá a levaram presa, para lá retornou livre.
Assim aprenderam as Filhas os outros nomes
para a única navegação dos dias:
a duração, a dedicação amorosa, a frugalidade,
e como e por onde corre o Sopro da Vida,
aquilo que dizem ser o tai chi.
Já a Mãe era tão velhinha quando os templos voltaram a florir
a mais radiosa brancura, a que tu sabes e eu sei chega antes do fim,
e as televisões foram ver aquela lenda viva:
as Filhas lavavam-na, cozinhavam para ela, penteavam-na.
Nenhuma delas falou de comunismo nem de tai chi,
só de como a Mãe as tinha amado.

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.
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10 respostas a Um livro pequenino, uma vida grande

  1. nanovp diz:

    Este tenho, Eugénia…um pequeno tesouro….!

  2. riVta diz:

    coisa tão bonita

  3. Abandonemos tudo, as igrejas, a foice e o martelo. Basta-nos um sorriso de mãe.

  4. juan diz:

    (…)”a Mãe saía muito cedo, cheia da pri­meira luz, e bus­cava entre as pedras e as ervas, bagos, fios de nada que fer­via” (…) Bonito!

  5. Maria do Céu Brojo diz:

    Não tenho o livro. Mas gozei o texto de cima abaixo.

  6. Vale muito a pena tê-lo, Céu. Obrigada.

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