À velocidade da ficção

18ukraine5-articleLargeO conflito na Ucrânia, a entrada das tropas russas sem identificação na Crimeia, o cerco à fronteira com a Ucrânia, o referendo de um dia para o outro, a aprovação da anexação da Crimeia pela Rússia, dois dias depois do referendo, e o discurso de Putin ontem no Kremlin – perante centenas de parlamentares e governadores que gritavam, alguns de lágrimas nos olhos, “Rússia, Rússia” – afirmando que se revertia um erro histórico, que a Crimeia sempre tinha feito parte da Rússia nos corações e do pensamento do povo e lembrando, o que chamou, as humilhações do Kosovo e da Líbia, amigos da Rússia atacados pela Nato; todo este desenrolar de acontecimentos parece ficção. Parece (e talvez seja) escrito para a televisão, como uma série: no primeiro episódio estão manifestantes na rua, no segundo cai o tirano, no terceiro chegam as tropas russas, no quarto as tropas invadem, no quinto há um impasse que se conclui com um referendo, no sexto a anexação…

Esta velocidade com que a coisa se desenrola não parece ser a velocidade do mundo a que nos habituámos, a velocidade das decisões entre governos e nações. Pelo menos não parece ser a velocidade da diplomacia e das relações internacionais a que as gerações do pós-guerra se habituaram. Não parece ser a velocidade da civilização em que julgávamos viver. É a velocidade de Hollywood, das séries da HBO e dos romances históricos. É a velocidade da ficção. E não da boa ficção, que essa leva mais tempo. Esta história da Rússia, da Ucrânia e da Crimeia parece-me inverosímil: a narrativa não faz sentido nem tem lógica. Anda muito depressa, faltam pedaços da história, há elipses e omissões narrativas um bocado toscas, espaços que são deixados à nossa imaginação para completar mas que soam a banhada.

Mas não é banhada, é de verdade. Mesmo que a realidade pareça má ficção, são mesmo episódios da realidade. Resta-nos aguardar pelos próximos. Ou ficará isto por aqui, para continuar apenas numa season 2?

Esta história anda à velocidade da ficção e não é a velocidade da razoabilidade. Será esta, porventura, a velocidade da História? Se calhar foi sempre assim que as coisas aconteceram, e nós, as gerações que viveram em paz, é que nos convencemos que era de outra maneira.

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu): “Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”
Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

13 respostas a À velocidade da ficção

  1. Mario diz:

    O leopardo nao muda as pintas…
    Ps: o urso era mais apropriado mas nao me lembro de nada com ursos

    • Pedro Bidarra diz:

      Diria que o urso não muda de dieta. Mas é verdade. Nós somos, todos, mais como os russos do que como a ideia piedosa e civilizada do ocidental educado, razoável, quase grego, e que é mais um modelo do que a realidade. Vem aí tanta merda…

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    As guerras começam sempre depressa, tão depressa que, depois, ninguém se lembra de como começaram.

    • Pedro Bidarra diz:

      Começam sim. Mas esta é estranha, insisto. Há qualquer coisa de série da Fox e que nem sequer é das melhores. Parece uma coisa tipo Steven Segal ou coisa que o valha. Há um bom artigo na BBC sobre esta smoothest invasion

  3. Maria do Céu Brojo diz:

    Sabe que mais? Adorei conteúdo e forma.

  4. juan diz:

    Tipo… aquela trama dos filmes de classe B sobre regimes caducos em que se adivinha o final, e o rapaz da fita salva a rapariga. Só que neste caso o final não se adivinha, pois é um ‘enredo’ diferente…

  5. Pedro,
    é um modo certeiro de descrever a coisa.
    Já não basta ser sinistro tudo isto,
    a velocidade a que acontece ainda se torna mais desconcertante.
    E concentrar este desconcerto num texto curto é obra.

  6. nanovp diz:

    Reality is stranger than fiction….

  7. Sofia Lopes diz:

    Reality is an illusion caused by the lack of vodka

Os comentários estão fechados.