Alguém do outro lado

Escultura em fio de arame, Sophie Ryder

Escultura em fio de arame, de Sophie Ryder

ALGUÉM DO OUTRO LADO

Hoje fiz berbigão de molho branco – a receita da minha avó. Estava tão bom. Nem sobrou. Com o marisco muito fresco acontece isto de ficar o cheiro do mar quando liberta a água que traz dentro na cozedura breve. E a cozinha passa a ser na praia se fecharmos os olhos.

Lá fora chove ainda. Chove desde ontem. A temperatura desceu. Assim mesmo é bom estar na praia de olhos fechados, a lareira a queimar bem o azinho há-de pensar-se uma fogueira.

Escultura em fio de arame, de Sophie Ryder

Escultura em fio de arame, de Sophie Ryder

Ontem não dormi. De vez em quando, mas cada vez menos frequentemente, acontecem-me ainda as insónias. É uma estação como a das chuvas. Nunca soube porquê. Já tive teorias e terapêuticas, há muitos anos atrás, não encontrei resolução nem numas nem noutras, deixei ambas: nem tudo tem desfecho, algumas coisas têm continuidade com ou sem interrupções. É assim. Mas a noite de ontem, confesso, enganou-me. Estava cansada do dia ter corrido bem, escrevi tudo quanto podia ter escrito, um despropósito de caracteres, e ainda voltei atrás, corrigi, planeei o que vou escrever hoje, tirei notas, tinha sono. E cansaço de palavras dentro da cabeça, conheço-o logo, falo em voz alta um pensamento, quero dizer, falo sozinha como quem está acompanhada, ou digo ou escrevo um disparate que detecto porém não sei corrigir o erro. Deitei-me e nada. Abri a luz. Li. Fechei a luz. Nada. Levantei-me e vim pelo escuro até aqui – gosto tanto de atravessar o escuro à noite, de sentir o chão frio em cada passo, da adivinhação das sombras, tudo está no seu lugar, caminho de cor. Não consegui alinhavar nem uma das notas em forma de frase, já o brilho do ecrã me entrava pelos olhos adentro, e tudo muito quieto: passei pelos sítios do costume, todo o www. dormia. Das nove às onze desta manhã o corpo cedeu e dormi eu. Há vontades em mim que desconheço, não as percebo, não lhes sei responder: deve ser isto a insónia, uma conversa de surdos ou um conflito mudo.

Escultura em fio de arame, Sophie Ryder

Escultura em fio de arame, Sophie Ryder

Enfim. Com ou sem insónias é um alívio quando se encontra o fio e sai. Ali onde se está preso é mau porque é incompreensível. Parte-se uma peça secreta qualquer e as ligações caem, tal qual uma chamada telefónica. Se estar só é bom e é um bem, ficar-se isolado até de si mesmo não. Enquanto dura é um susto. É um e se nunca mais. Depois a ligação retoma-se. É sempre o mundo lá fora que nos vem resgatar da solidão. Talvez seja a forma que encontra para nos dizer que é mentira, que parece que sim, mas não, está alguém do outro lado mesmo quando a chamada cai.

AQUI há alguém do outro lado

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.
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14 respostas a Alguém do outro lado

  1. A sua cozinha encheu de aromas este blog. Deve ser bom caminhar de olhos fechados no escuro de uma casa. É preciso que casa e caminhante se confiem sem limites

  2. nanovp diz:

    E que olhos estes Eugénia…até têm olfato…

  3. juan diz:

    Com todo o respeito, hoje não consegui deixar de dar duas gargalhadas ao ler o seu texto.
    Uma, logo no inicio, quando após ver a imagem introspectiva e enigmática da escultura, li: “Hoje fiz ber­bi­gão de molho branco”. A outra quando li: “todo o www dor­mia”. Divertido!

  4. riVta diz:

    não troco as suas insónias pelas minhas dores de cabeça mas não queria deixar de lhe dizer que há duas ou 3 frases ( ou muitas mais ) bem boas no seu post acima. infelizmente berbigão e molho branco não é uma delas.
    ah ah ah

  5. Mario diz:

    O molho branco dos berbigoes leva o que? azeite, salsa e alho?
    PS1: ainda bem que vai estando desse lado da linha para os seus leitores
    PS2: lamento pelas suas insonias e pelas dores de cabeca da Rita

    • Azeite, claro, para muita cebola cortada fininha, alho, salsa e coentros e, no caso, parte da água que os berbigões largam enquanto abrem – tem de ser coada. Se precisar de engrossar um bocadinho, junte um mínimo de farinha Maizena já perto do fim, depois das batatas em rodelas grossas estarem macias.

      Ps: merci.

  6. Olá.

    Só para dizer que gosto muito de ler o que escreve.

    Mesmo que o tema não me interesse muito, interessa a escrita. E, logo, interessa o tema.

    Não é próprio dizê-lo aqui, mas dá-me uma grande alegria quando encontro os seus posts.

    O berbigão de molho branco em Georgia 9,5 apreciei.

    Apreciá-lo à minha frente no prato está para lá da imaginação do meu paladar. Só tentando.

    NHL

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