“Angolizar” # notas românticas da chegada

Numa Luanda destruída, em construção, valoriza-se o tempo presente. Um dia de cada vez e confiar no imprevisto – é o lema para se viver nesta África Angolana. Vamos esquecer as agendas, a planificação e os horários. Não resulta. As soluções estão no presente e não no futuro. Estão no caos e do caos nasce o encontro e a vontade. Há que ter muita vontade e fé para se viver em Angola. Apesar dos desajustes este país é amado, muito amado pelo seu povo. Há um orgulho em ser Angolano. Há uma bandeira erguida na mais perdida das aldeias, no fim do mundo, na origem da vida. Casas feitas de terra, mulheres com o peito descoberto, crianças, homens e uma bandeira. E uma parabólica, porque os angolanos gostam muito de “assistir”. Há também uma grande bandeira esvoaçante no cimo do forte que dá para a Ilha de Luanda, à qual chamam monumento. A própria bandeira é o monumento.

Ao primeiro olhar, as coisas não fazem sentido. É preciso estar-se disponível para “Angolizar” e assumir o surreal. E rir… rir muito em vez de perder a voz.

O tempo é mesmo outro, não é contado como no resto do mundo. Quem quiser viver na banda tem de reaprender a contar, não é fácil, mas é possível.

Os meus conterrâneos no avião interrogavam-se e chegaram a pedir-me satisfações da minha vinda a Angola: A melhor maneira de conhecer um povo é através das suas expressões artísticas. Da partilha. Tenho a certeza que no meu regresso serei uma actriz muito mais rica.

A minha amiga Susana Mendes desafiou-me: Dar formação a jovens actores, no Elinga – um teatro com história que acolhe muitas estruturas: o seu grupo profissional e outros grupos de dança e teatro amadores que também por ali ensaiam. Eles vêm de longe, dos musseques circundantes e são capazes de demorar 2 ou 3 horas para chegar ao Elinga, mas vêm para ensaiar. Para estarem com o seu grupo e fazerem o que mais gostam – dançar, representar. Agora também vêm para estar comigo. Para partilharmos experiências.

Não tenho por hábito dar formação, por isso preparo muito bem as aulas. Pesquiso na minha memória todos os exercícios que fui aprendendo ao longo destes anos. Regresso ao passado. Aos meus 16 anos quando comecei os meus estudos e dúvidas, e em parceria com a minha amiga Susana, também ela “Chapiteca”, relembramos os primeiros jogos e exercícios que aprendemos. Recordamos professores, colegas. Revivemos  aventuras próprias de miúdas aspirantes a actrizes.

Eles têm vindo, têm gostado e eu também. Não sabemos quanto tempo iremos estar juntos. Estamos dependentes das máquinas que um dia destes, a qualquer momento, podem chegar e derrubar o Elinga: situa-se bem pertinho da marginal, onde os edifícios coloniais dão lugar a arranha céus, que, se tocarem bem alto no céu, talvez os deuses nos deixem fazer uma apresentação pública do curso – provavelmente a última apresentação no Elinga “colonial”. Seria um prazer fazer parte da história do velho Elinga. Até porque a história irá continuar num novo espaço prometido, com melhores condições.

Viver um dia de cada vez, tendo como certo o imprevisível. Aqui a solução está no presente, porque como diz o meu amigo Nanu Figueiredo “O futuro só se diz em particular.”

Sobre Sandra Barata Belo

Nasci em Lisboa no final da década de 70. Cresci em Alfama e nas férias, que não são grandes, vou sempre para o Alentejo. Sou filha única, aprendi a brincar sozinha. Gosto que me contem histórias mas também gosto de as contar. A palidez da realidade pode pôr-me sem cor, por isso nada melhor que uma boa gargalhada. Gosto de coisas simples, de pessoas generosas, gosto de arte. interpretei a grande Amália no cinema. Seguiram-se as novelas da SIC. Isso faz com que as pessoas me reconheçam na rua. Estudei no Chapitô onde aprendi todas as bases do que sei fazer hoje. Já fiz muitas coisas, dancei, fui trapezista, malabarista e clown (fica sempre melhor em inglês). Produzo, dirijo e levo a palco livros e autores que admiro. Continuo a querer fazer muitas coisas diferentes. Sou curiosa e não quero deixar de o ser.
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11 respostas a “Angolizar” # notas românticas da chegada

  1. cc diz:

    Que fantástico ter ido, estar aí…Para nós que ai vivemos é mais difícil mas perfeitamente possível, como reencontrar um amor que é ainda o mesmo mas é já outro. Eu também gostei muito de estar aí e acho que tem inteira razão e o verbo que escolhe é magnífico. Esqueça começar e acabar as horas, o tempo é outro. Vão pedir-lhe duas cucas de uma vez porque dá azar pedir só uma. E sim, é um povo orgulhoso do seu país.
    ~CC~

  2. Maria do Céu Brojo diz:

    Estou empolgada com a sua estadia em Angola, em Luanda, onde quer que aí vá. Conte mais, conte muito a esta ignorante da África mais a sul. Boa sorte, Sandra.

    • Sandra Barata Belo diz:

      hei-de contar mais histórias da banda, há muita coisa para ser contada, Maria.

  3. Faz futuro, Sandra, faz futuro… de mansinho

  4. nanovp diz:

    O presente chega e sobra…

  5. nanu f diz:

    Oiço-te amiga, são sempre de agora os princípios do coração!

  6. paulo cesar palmeira diz:

    leve sua arte para África e prove a grande atriz de Portugal que sabemos que você é.

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