Antes galdéria do que normal e remediada

“Nunca Palha tinha comido uma gaja daquelas e nunca uma gaja o tinha devorado assim. Mizé era a volta mais inesperada que a vida de Palha alguma vez podia dar. Era a oportunidade num milhão. Era a subida para o patamar social onde muitos poucos sonhavam viver. Nenhum dos amigos de Palha vivia ou estava casado com uma gaja boa. Alguns tinham gajas mais ou menos boas. Mas boa, boa como Mizé, não.”

Alturas houve – e não tão distantes assim – em que, enquanto os meus cultíssimos amigos blogueiros aprofundavam e discutiam, com uma elevação e originalidade dignas de tese de doutoramento, leituras que relacionavam a pornografia com o sagrado e a arte, a filosofia e a estética, eu corava de vergonha na dedicação que punha a abordagens bem mais brejeiras e sórdidas do tema. Mas que estranha é esta coisa de um gajo se sentir apanhado em flagrante delito só porque trata a pornografia como ela merece ser tratada – ou seja, da forma mais grotesca que o nosso animalesco instinto nos sugerir. Pois é, deixem que vos diga que há leituras que nenhum homem pode desdenhar, nem o mais bem comportado dos rapazinhos de coro. Até porque, em teoria, ninguém está imune a surpresas como as que caíram em cima do peculiaríssimo Palha, vendedor de batatas fritas nos arrabaldes de Lisboa e, convém dizê-lo, herói lá do bairro por ter sacado a “gaja mais boa da vizinhança”. Numa noite de copos com os amigos (daquelas noites só para homens, se é que me faço entender), deu com a própria mulher, a dita boazona, em pleno bacanal num “filme de putas” (é assim que lhe chamam Palha e os amigos), numa cassete Betamax (ou seria VHS?) alugada no clube de vídeo do mesmo bairro que dele fazia um herói. Pois bem: foi mesmo esse o azar de Palha, o castigo que ele teve de pagar por ter casado com a mulher que todos cobiçavam, a atracção do salão unissexo (vulgo cabeleireiro misto) da zona, e para quem, ficou bem à vista de todos na cassete, não existiam limites para ser “famosa” (mas onde que nós já ouvimos isto?), nem mesmo o risco de ser apontada a dedo pelas piores razões. É a própria que o diz: antes “galdéria do que normal e remediada”.

Feitas as apresentações de “Mizé – Antes galdéria do que normal e remediada”, decerto compreenderão que não é minha intenção contribuir, com o mínimo dos mínimos de dignidade, para qualquer debate sobre a moralidade do comportamento da rapariga. Já vos disse que estou noutra. Tanto que não tenho pejo nenhum em vos confessar que o meu “facies” foi acompanhando a leitura com esgares que oscilavam entre o sorriso malandro e cúmplice de “macho” e a gargalhada alarve sem perdão.

Para aqueles que gostem de uma boa consolação para justificar desvios desta natureza, fiquem com a de haver quem diga que o escrevedor da historieta, Ricardo Adolfo de seu nome, português nascido em Luanda, escreve livros como Almodóvar faz filmes. Ou fiquem ainda a saber que eu próprio, para expiação do pecado do deleite que a leitura me provocou, tenha procurado converter a pura e simples brejeirice em delirante e brilhante exercício de humor non sense. Ao ponto de, vejam lá, ter acabado a comparar a “Mizé” com essa extraordinária inspiração da minha pós-adolescência que foi a “Crónica dos Bons Malandros” do Mário Zambujal.

Eu não desminto: isto é tudo muito “chunga”. Mas quem disse que não podia haver literatura “chunga” da mais fina cepa? E não me venham com a pornografia. Que se lixe o debate sobre a pornografia.

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.
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8 respostas a Antes galdéria do que normal e remediada

  1. Pois parece chunga e, clarissimamente e galderiamente, muito mais do que chunga. Bem trazido.

    • Diogo Leote diz:

      Pois é, Manuel, e esta coisa de nos sentirmos chungas de vez em quando faz muito bem à saúdinha.

  2. escrito por uma senhora diz:

    Puta aqui é a sociedade, porque é que a Mizé ė uma galdéria e o Casanova de Seingalt ė um Casanova?

    Faz parte do equilíbrio humano, dar fogo à paixão, viva a Mizé que o devorou.

  3. Diogo Leote diz:

    Não ouso desmenti-la, cara Senhora. O mundo sem as Mizés da vida teria muito menos sal e pimenta.

  4. nanovp diz:

    Invejosos… esses amigos do tanas…

    • Diogo Leote diz:

      Bernardo, este é um fetiche dos tempos modernos. Já não com cassetes betamax ou vhs mas com webcams e selfies por todo o lado.

  5. Maria do Céu Brojo diz:

    Olha a surpresa! Ainda estou na ressaca. E que bem sabe…

    • Diogo Leote diz:

      Maria, faça favor de não sair da ressaca. Este é o livro indicado para ressacas prolongadas.

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