Batem leve, levemente

 

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Comece-se com a delicadeza que só a mão leve da língua francesa autoriza:

Qui n’a pas été branlé par une duchesse ignore le plaisir

O aforismo, profusamente citado hoje pelos mais libertinos autores gauleses, vem do Século das Luzes. É talvez uma das melhores e mais ternas frases de um livro impresso e reimpresso no final do século XVIII. Tanto aparece com o título L’ encyclopédie de la nature (este guardado na Biblioteca do Estado da Baviera e depois andem a queixar-se da Senhora Merkel), como Le Petit-Fils d’ Hercule ou Le Lutteur, ou le Petit-Fils d’ Hercule (volume de que a Biblioteca de Oxford se orgulha).

Escreveu-o um anónimo, que se assina, não sem alguma arrogância, Hercule. Hercule seria, ao que parece, bem dotado e um sempre em pé, o que o fazia cair nas mais nobres graças. Nesse livro contam-se aventuras galantes, cujo único combustível, nesse tempo ainda sem gasolina, era o prazer. E a pé.

Pela subida consideração em que tenho leitoras e leitores deste Escrever, dou um pouco mais de contexto ao magnífico aforismo – que mais e lugubremente nos faz lamentar a extinção da aristocracia portuguesa – traduzindo, com as devidas liberdades de linguagem, o período completo em que a frase se insere. Escreve Hercule:

Por vezes, sentia-me cansado, mas se uma condessa comigo empernava, logo renascia, como se tudo o que até aí tivesse feito, mais não tivesse sido do que um prelúdio; quem nunca foi punheteado por uma duquesa, ignora o que seja o prazer.

Sublinhando-se a grácil circulação social de Hercule que, no mesmo período, cobre dois diferentes estratos da Corte, passando de um condado a uma casa ducal, deixem que vá adiante, linhas abaixo, para vermos como, justificando o superlativo elogio, Hercule  se entretém a enumerar as doçuras recebidas:

Ela vai despetalando, por assim dizer, as fibras dos colhões, agita umas contra as outras: esgota as fontes, sem nunca extinguir os desejos.

Não leiam, não, e depois queixem-se.

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Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

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6 respostas a Batem leve, levemente

  1. Entre postais e livros qualquer dia faz uma valise e diz-nos adieu.

  2. Diogo Leote diz:

    Manuel, e eu tenho uma frustração na vida: nunca ter vivido em Paris. Bienvenues soient toutes tes histoires qui m’amènent à Paris.

  3. nanovp diz:

    Pois o título pode passar despercebido…

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