Fechado para obras

Tenho o romance parado há uma série de dias – bem mais de dez. Nada disso seria importante se não houvesse um prazo a esgotar-se. Não consigo escrever uma linha. Até me poderia perdoar se tivesse escrito um poema em condições. Mas não.

Se tivesse um ensaio para escrever, escrevê-lo-ia, ou uma crónica. Esta inoperacionalidade não afecta ensaios nem crónicas. Muito menos notas ou estes diários que fazemos abertos para acreditarmos que alguém se interessa. Não pela escrita, obviamente, por nós. Inventámos esta rede de ecos para imaginarmos que não estamos sós – somos mais ridículos do que o cliché das cartas de amor.

Toda a gente deveria ser obrigada a casar, a ter filhos, cães e gatos, hipotecas, correntes fortes como a gravidade, empregos de horário inflexível.

Um romance é um luxo voador, anti-gravitacional, ou porque se tem tudo e se trocam pessoas por horas de papel, ou porque não se tem nada e assim a própria existência é desprovida de razão, portanto um luxo – se não fosse a bendita civilização, toda a inutilidade estava morta. RIP.

Há aquelas pessoas que dizem: se voltasse atrás fazia tudo igual. Pois bem, se voltasse atrás fazia-me toda diferente em tudo. Objectivamente científica, nada menos do que uma biologia celular ou uma engenharia genética, solidamente materna, casada com homem daqueles das oito às vinte que chegam mortos a casa quando os filhos já dormem, e não escreveria umazinha só palavra que não tivesse de ser escrita,  e preencheria documentos de forma exemplar e debitaria pensamentos sobre o que fosse como um multibanco notas, certa e com extracto verificável. Saberia sempre o que fazer.

Que felicidade não ter liberdade.

Porra que estou farta. Desisto.

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.

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15 respostas a Fechado para obras

  1. Inma diz:

    “Ai que prazer
    Não cumprir um deber,
    Ter um livro par ler
    E no o fazer!”
    LIBERDADE de Fernado Pessoa.

  2. nanovp diz:

    A pressão matar-me-ia Eugénia! Gostei da música, não conhecia! Agora não pode è desistir…

  3. Paula Santos diz:

    Desistir??

    “Resumo do nome Eugénia
    Com uma auto-confiança que beira a arrogância a pessoa de personalidade 8 não costuma decepcionar os amigos. Muito disciplinado, sua aparência transmite sucesso e prestígio, que vêm graças ao grande espírito de competição e capacidade de liderança. Adora desafios e por isso é fascinado por relações complicadas. No trabalho critica quando acha necessário e elogia na mesma moeda. É sexualmente agressiva e segura de si.”

    😉

  4. Mario diz:

    Bem, se nao consegue escrever e porque deve ter tido melhor coisa para fazer, mas pronto, falta-lhe um clique, ora tome la: CLIC!

  5. Maria do Céu Brojo diz:

    E outro CLIC meu. Vai ou não vai? Se emperrou, «desemborrega» em pouco tempo.

  6. juan diz:

    Quem conhece tão bem a Rosa Maria… não ‘atira a toalha’, certo?
    Se assim fosse este blog perdería a sua componente poética.
    Uma período sabático… ajuda!

  7. Pedro Bidarra diz:

    Não sei se lhe serve de consolo mas igual aqui. Há mais de 10 dias. Já fui à montanha, a Paris e nada. Nem uma palavrinha nova. Pode ser que a primavera as traga. Com as folhas

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