Não te metas com mulheres

 

 A janela aberta. É o nome da pintura de Bonnard que serve de capa ao livro. E se todas as janelas se assemelham, então é Bonnard que pinta esta que me serve de tela contínua durante a viagem. A banda sonora tem o som da pena de Somerset Maugham. E tantas vezes li os contos no comboio que o corpo toma um balanço inconsciente quando leio. Para mim, o pouca-terra pouca-terra faz parte da história mesmo quando não existem caminhos de ferro no conto.

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Não há comboios em The Facts of Life, por exemplo. E não estou a ler em viagem. Mas já me sinto balançar quando o pai se acerca ao filho – que vai sair de casa pela primeira vez aos 18 anos para um torneio de ténis em Monte Carlo – e lhe impõe 3 regras: Não jogar; não emprestar dinheiro a ninguém; e não se meter com mulheres. O corpo balança-me divertido contra a janela, caramba, coitado do rapaz. 

E não é que o autor faz com que o filho, quase sem querer e quase sem mentir, consiga fazer tudo o que o pai proibiu, divertir-se à brava e sair a ganhar e airosamente do imbróglio? A garganta seca-se-me quando é enganado por uma finória e tudo se me espanta quando ele lhe dá a volta; os ombros já se me encolhem em riso quando ele rouba quem o roubou; o pai arrepia-se e engole em seco a contar a história aos amigos, Não te metas com mulheres, meu filho…e o que faz um pai quando um belo conselho cai por terra?, os amigos riem, meu amigo, é melhor nascer sortudo que esperto ou rico.

E assim se safa o sarcástico Somerset a tirar o tapete a pais e leitores com mais um magistral e inesquecível conto… e eu nem um resumo consigo fazer (e a tradução é muito livre). 

Em cada livro 30 contos, que felicidade. Tantas viagens. Nem só de Fio da Navalha ou de Servidão Humana vive um romancista. Estas breves narrativas passeiam-se pelas Ilhas do Pacífico, Inglaterra, França, Espanha. Pelas falhas fininhas do carácter, pelas cintilações da tragédia, pelas astúcias da malícia. E trocam as voltas a qualquer leitor. Ou personagem.

E eu feliz com com isso. Nem me importo que este comboio efectue paragens em todas as estações e apeadeiros. 

 

Sobre Teresa Conceição

Ainda estou a aprender esta terra de hieróglifos. Tenho na mala livros e remoinhos, mapas e cavalos guerreiros, lupas e lápis de cor: lentos decifradores. Sou nativa de Vadiar, terra-a-terra. Escrever? Ainda não descobri onde fica. Mas parto com bússola e farnel (desconfio que levo excesso de bagagem).
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9 respostas a Não te metas com mulheres

  1. Elas são umas diabas em high heels:

  2. É tudo um sorriso colorido nos seus posts, menina Tê – que saudades. Ainda bem que veio com os contos do tio Somerset.

  3. Lá vou ter de ler os Facts of Life. Acho que estou na idade.

  4. nanovp diz:

    Pois sempre achei que comboios têem a ver com livros e talvez as paragens com os capitulos…parece fantástica a edição…

  5. Caro Taxi,

    muito obrigada pelo seu pronto e alto sublinhado. Deadly, no doubt about it.

  6. Querida

    Querida Eugénia,
    que bom saber que gosta dos contos. Obrigada pelo sorriso que me deu.

  7. Já fiz um bom serviço se vai lê-los, Manel. Vai divertir-se.

  8. Bernardo,
    também me parece. É claro que os livros fazem parte da viagem, tenha o texto o tamanho que tiver. Mas sempre achei que os contos convivem mais intimamente com a cadência rítmica dos carris…

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