O pão dos anjos

A ROSA QUE FICA DE PÉ

Às vezes sonho segredos,
não me incomoda a estranheza,
sei que o mundo acima nos fala assim:
a língua dos anjos é uma
máquina de fazer loucos para quem
a quer entender, eu já não quero
Quando era muito novinha
e o tempo só existia fora de mim
ficava em casa a estudar tudo
quanto apanhava, e nada chegava,
ninguém respondia, nenhum mistério se abria
e só Deus sabe:
era uma forma de chegar aos céus
Nunca cheguei, claro
E sempre tive muita dificuldade
com o faça-se em mim a Tua vontade,
mas às vezes sonho segredos
e se a razão me diz isso não tem sentido
respondo-lhe não te acredito,
não há fé sem crucifixo
Tudo quanto fiz e farei
de bom, de belo, de bem
não começou em mim,
começou Além:
às vezes sonho segredos

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.
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16 respostas a O pão dos anjos

  1. Os anjos fazem jejum

  2. Manuel diz:

    Olá Eugénia! Já conseguiu retomar a escrita do seu romance?

  3. Que tudo faça e tudo se faça segundo esta poética vontade.

  4. Paula Santos diz:

    Segredos sonhados a cor de rosa…
    Não façamos barulho não vá a Maria acordar.

    🙂

  5. Mario diz:

    E ainda bem que os tem, os sonhos e os segredos porque deles resultam poemas…olhe, sonhe com romances tambem 🙂

  6. nanovp diz:

    Amén para tudo o que começou, como bem diz, Além…

  7. juan diz:

    “não há fé sem cru­ci­fixo”
    mistério, misticísmo, segredo…
    tem tudo para um bom romance
    um sonho…

  8. Eugénia,
    estes seus anjos, dá vontade de copiá-los assim a caneta de tinta permanente num papel bonito e levá-los no bolso o dia inteiro, para ir saboreando o pão aos poucos. Se calhar não iria lê-los outra vez. Se calhar talvez apenas os escutasse ao longe: como um fado.

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