O próximo do próximo

Bom samar

O bom samaritano transportou o homem ferido, que de lado nenhum conhecia, para uma estalagem, depois de lhe desinfetar as feridas com vinho e azeite. Na estalagem mandou que cuidassem dele e deixou duas moedas de penhor.

O homem ferido recuperou, antes que o bom samaritano regressasse, como houvera prometido, para pagar a conta e saber do estado do seu protegido. Este, já recuperado, esperou ainda um ou dois dias, mas era tarde e teve que se fazer à estrada, depois de muito de agradecer ao estalajadeiro e de lhe pedir que transmitisse ao bom samaritano os seus agradecimentos.

Umas milhas à frente viu um homem estendido no chão. Manifestamente fora assaltado por malfeitores que lhe haviam roubado a bolsa e o dinheiro. Estava inconsciente, imóvel, com a cara no pó da estrada, embora um gemido fraco indicasse que vivia. O caminhante parou e avaliou a situação – que poderia fazer? Ele próprio fora assaltado há dias e ficara sem dinheiro, tendo sido salvo por milagre, por um homem que jamais vira. Olhou à volta, mas só havia levitas e sacerdotes e esses – sabia-o ele de experiência feita – jamais querem ajudar quem necessita. Que podia, no entanto, ele fazer?

Seguiu viagem angustiado com a injustiça do mundo.

Parece que o bom samaritano nunca chegou a pagar a dívida ao estalajadeiro.

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom. Sem nunca me levar a sério - no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom (e barato).
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3 respostas a O próximo do próximo

  1. llopes49 diz:

    Só gostei muito do que li.Há disso por ai e eu não gosto.

  2. Caminhante, há cada vez menos caminho?

  3. nanovp diz:

    A bondade e a compaixão, quando verdadeiras, agarram-se à pele…acredito que se elas existissem em nós, haveria aí um grão de divindade…

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