O regresso a casa

 

 

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Foi então que o começou a roer um furioso desejo da casa. Sentia a casa tão perto. Reconheceu a malha do bairro, as primeiras ruas do quarteirão. Nem sabia como chegara ali. Vogara ao acaso? Como se houvesse acasos. Um íman puxara-o? Podia dizer que sim, que fora atraído, mas sabia muito bem que se empurrara a si mesmo.

Há tantos anos que não voltava àquelas ruas. Cinco anos. Cinco anos são um muro de betão. E agora os cinco anos desfaziam-se, inúteis, contra a nitidez do passado. A porta abria-se e podia ver a mesa da sala, o silêncio da mesa posta para o jantar. No escritório que fora dele, adivinhava a severa serigrafia de um Palolo, o primeiro livro de banda desenhada que o pai lhe dera, os modelos de três Messerchmitt Bf 109 pendurados do tecto. Em formação rigorosa.

Estalava-lhe no peito um furioso desejo da casa. Como estaria ela, Marta, a mulher que abandonara? E o filho com que há cinco anos não falava? Se agora, com um dedo ansioso, tremente, carregasse na campainha, será que lhe abririam a porta?

Voltava como um cão perdido, com uivos de saudade. Ao faro canino, apuradíssimo, chegava o cheiro de coentros picados, de alho esmigalhado. Tudo nele queria a casa, as narinas abriam-se aos cheiros, as paredes do estômago antecipavam umas migas alentejanas.

Fora-se embora para não a matar. De amor. De ódio. Amava-a com uma brutalidade que o assustava. Um amor de fogo. Fervia só de pensar nisso, o coração em lava. Cinco anos de cinzas para calar o vulcão de ciúmes. Ela era a mulher que toda a cidade queria. Uma faca rasgava-lhe o cérebro quando pensava que meia cidade a tinha tido. Bem podia o psicólogo dizer-lhe que não, que era pura projecção paranóica. Olhava para Marta, para o esplendor dela, o sorriso, curvas, os seios, as altas pernas, e sabia. Mesmo que não soubesse. Sabia. Olhava para ela e incendiava-se, deslumbrado de amor, atormentado de ódio.

Agora, com a casa que já devia estar ali tão perto, com os cheiros, a lembrança do vaso feng–shui de orquídeas à entrada, inundavam-no ondas de amor. Que saudades dela. E a ferida do ciúme a abrir-se-lhe em estrela na barriga. Tinha-se ido embora para não a matar. Nunca lhe tocara com um dedo. A violência ficava dentro dele, dentro do corpo dele, essas muralhas de que tombavam caldeirões de azeite a ferver. Quando estava assim, se lhe tivesse tocado com um dedo, tinha-a fulminado.

Reconheceu a rua. Era ali. E lembrava-se: até do filho tinha ciúmes. Não a queria mãe do filho dele. Seria dele? A cara chapada, dissera-lhe a sua própria mãe. A minha mãe chorava, ó meu filho, ó meu filho e nem assim, pensa ele, e já está na rua de que o separaram cinco anos. Não abraçava o meu filho, era de ferro com ele, bruto, feroz: e ainda é ele que pensa tudo isto e o amargo lamento de nunca ter gozado um filho, enquanto avança, a casa já tão próxima.

Um desejo furioso da casa. Do amor dela, do amor do filho. Quer tanto redimir-se, apertar o miúdo nos braços – terá agora 17 anos? – encher de beijos a boca de Marta, soluçar com a cabeça reclinada no colo dela. Arrebata-o um vento quente, amoroso. Tem lágrimas de paixão nos olhos, lume e seiva nas veias, um urro violento, primário, longinquamente humano, sai-lhe da boca. Tem de a ver, amor alado, tem de entrar agora mesmo em casa, é aquela a porta.

Os dedos agarram-se, urgentes, ao manche, os pés batem fundo os pedais, o ponteiro do anemómetro marca a velocidade máxima, e o avião, em voo picado, como um trovão justiceiro, entra pela casa dentro, a arder de amor, a explodir de ódio, as paredes em combustão, tijolos, cimento e ferro a retorcerem-se entre a incandescência e a mais negra escuridão. Um mundo de infinito silêncio, depois.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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13 respostas a O regresso a casa

  1. Mario diz:

    Ele teve uma segunda chance?

  2. Vir para Lisboa é fácil regressar a casa é mais difícil:

  3. nanovp diz:

    Desta vez Manuel, a violência não ficou dentro dele….espatifou-se em pedaços de metal deformados pelo calor. Grande texto, by the way!

  4. Pedro Bidarra diz:

    Toma para aprenderes!

  5. Maria do Céu Brojo diz:

    Que regresso, deuses! Estou abismada.

  6. Ana diz:

    Como dizia Chico Buarque, afinal esse “morreu na contramão atrapalhando o tráfego”. Abraços brasileiros.

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