Ora Tomem Lá Caterva de Usos Desusados!

Abela Manta, pintor nascido em Gouveia. (Fundação Calouste Gulbenkian)

Abela Manta, pintor nascido em Gouveia. (Fundação Calouste Gulbenkian)

“Mas quem somos nós senão os outros? Um homem é todas as coisas que ele viu e todas as pessoas que passaram por ele, nesta vida.” (Teixeira de Pascoaes)

O património de alcunhas nas Aldeias, freguesia do concelho de Gouveia onde ainda tenho a casa do Prado e raízes fundas, está ferido por gentes desmemoriadas cuja tradição oral pouco lhes importa. Dela, relembro idos e o desuso em que caiu linguajar que me encantava.

Nome primeiro acompanhado por outro associado ao lugar de morada ou afazer é passado. Hoje, imperam nomes como o notário registou. Mas são lembrados alguns, embora os utentes, na maioria, já tenham a alma no Além. Curioso era não se apoquentarem os alcunhados. A Emília ‘da Carvalha’, habitava junto ao carvalho frondoso no adro da Igreja. A ‘tia Costureira’ ou ‘Emília do Canto’ associava lugar de morada à profissão exercida com pundonor. O ‘José da Volta’ tinha casa à ‘curva do Prado’ e logo abaixo da escadaria que ao mesmo lugar ascendia morava o ‘Senhor Barbas’. O ‘Joaquim e a Emília do Largo’ viviam no Largo da Igreja, a ‘Céu Forneira’, no centro do «povo»*, cozia pão no forno comunitário.

Do casal ‘Joaquim e Alice Risadas’ lembro a curiosidade e o sorriso melífluo da «esposa», pais extremosos de menina que casaria cedo, talvez com dezasseis anos. Tornou-se mulher bonita que recordo elegante na postura ao atravessar a cidade. A ‘Senhora Céu Americana’ fora emigrada nos Estados Unidos da América. Voltara com fortuna, enfeites e ouros no pescoço, também ao dependuro em todas as extremidades, salvo pés. Óculos excêntricos para a moda local, lábios pintados com carmim espesso, cabelo preto enrolado em «banana» ripada. O cabelo nunca branqueou. Simpática e generosa.

À ‘Fernanda do Sargento’, filha de militar da GNR, solteirona, caracterizava-a o silêncio, a afabilidade, o ar maltrapilho conquanto tivesse posses de sobra. Combinar roupa extravagante era a sua especialidade. Irreverente, pouco lhe importava o que sobre ela era falado nos dizeres aldeões. Persistia nas idas e vindas diárias a pé para a cidade de Gouveia, àquele tempo, vila, que os mil e poucos metros facilitavam. Discreta, não era mulher para ‘levar e trazer’, o mesmo é coscuvilhar. Parece que por ter sido o pai republicano aguerrido, junto à casa de morada não paravam padre, andores, anjinhos e banda nas procissões .

A ‘Emília Romeira’, mulher simples no pensar, amiga dum copito mas sem exagero, trabalhadeira nos campos como poucas, tinha um filho: o ‘Menã’. Dele recordo chuchar no dedo até tarde e ser protegido pela família/madrinha Brojo. Tornar-se-ia homem desempenado e hábil em construir futuro. Mais lembro: muito pequeno, tendo sido incumbido pela mãe de um recado, chega-se à minha avó ‘Mamia’, alcunha tardia atribuída pelos bisnetos, e atabalhoa: _ “A minha mãe dixe assim: vai à menã que t’empreste a tesã.” Habituada ao entaramelado do fedelho, entendeu o que para outros seria código impenetrável _ “Vai à madrinha e pede emprestada uma frigideira”.

Sobre outros usos e tempos, escreveu Irene Lisboa que habitou por algum tempo na freguesia de Aldeias. Nas “Crónicas da Serra”, descreve criticamente as minhas tias solteiras por ela batizadas como as ‘meninas do Prado’. Melhor e pior: o retrato é fidelíssimo.

*«povo» como centro do povoado.

Nota: texto publicado em http://sempenisneminveja.blogs.sapo.pt/1045480.html

Sobre Maria do Céu Brojo

No tempo das amoras rubras amadurecidas pelo estio, no granito sombreado pelos pinheiros, nuas de flores as giestas, sentada numa penedia, a miúda, em férias, lia. Alegre pelo silêncio e liberdade.
No regresso ao abrigo vetusto, tristemente escrevia ou desenhava. Da alma, desbravava as janelas. Algumas faziam-se rogadas ao abrir dos pinchos; essas perseguia. Porque a intrigavam, desistir era verbo que não conjugava. Um toque, outro e muitos no crescer talvez oleassem dobradiças, os pinchos e, mais cedo do que tarde, delas fantasiava as escâncaras onde se debruçaria.
Já mulher, das janelas ainda algumas restam com tranca obstinada. E, tristemente, escreve. E desenha e pinta. Nas teclas e nas telas, o óleo do tempo e dos pinceis debita cores improváveis sem que a mulher conjugue o verbo desistir. Respira o colorido das giestas, o aroma dos pinheiros nas letras desenhadas no branco, saboreia amoras colhidas nos silvedos, ilumina-a o brilho da mica encastoada no granito das penedias.

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6 respostas a Ora Tomem Lá Caterva de Usos Desusados!

  1. nanovp diz:

    Parece um Fellini…as palavras chegam para imaginar o “filme”…gostei muito…

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Obrigada, Bernardo. E o melhor é que destas historietas ainda lembro mais. Um dia destes pranto-as aqui.

  2. juan diz:

    Na realidade, é a memória do que vivemos e do que somos que molda a nossa forma de estar na vida. Ainda hoje sinto um gosto enorme de reencontrar amigos de infância para conversarmos com o vocabulário e entoação de então. Curiosidade: el muy conocido Paco ‘de Lucia’ também foi alcunhado com o nome da mãe Lucia para se diferenciar dos restantes Pacos.

  3. Maria do Céu Brojo diz:

    De tal modo me revejo no seu escrito, que me é impossível passar um ano sem alguns retornos às minhas raízes beirãs. Alimentam-me. Fortalecem quem sou. E essa do Paco de Lucia que já conhecia só prova que estas realidades não têm fronteiras. Quem me dera delas saber mais!

  4. Ah, pois, sempre ouvi chamar sertã à frigideira e chicha à carne. Raio de beirão que sou.

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