Roubar

Fosse eu dada a arcadaísmos floridos
e andava de bandeira em arco
por este despontar da Primavera, a insidiosa.
Muitas vezes encostei o ouvido ao coração da terra,
ouvi os navios que ardem
no meio da batalha,
os reis destronados
e os punhais sanguíneos.
E também a conspiração das raízes
na sua calculista ânsia de superfície.
Mas como não entender a súplica de Deméter
pela filha ausente e os seus seguidores,
ávidos do bom tempo?
Em nome da enganosa floração das ruas,
roubei umas camélias que pendiam
tentadoras de uma grade verde e veio
o dono: então, não tem mais nada que fazer?
Pretextei inimputabilidades de circunstância,
invoquei a meu favor o rútilo circular e rubro, ladra de
flores, atributo que só é bem visto num poema de Março.
Vá lá à sua vida, disse ele, sem saber a que mandava.
Nem eu, para ser precisa.

Sobre Ivone Mendes da Silva

Entre lobos e anjos me habituei a escrever. É talvez por isso que, para além de asas e de uivos, as palavras me tropecem e não encontrem sozinhas o caminho das folhas. Nessas alturas, peço para elas a bênção da tristeza, musa de sopro persistente, que triste me faz e a acolhedoras mesas me senta.
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4 respostas a Roubar

  1. nanovp diz:

    Mal não pode haver em roubar camélias…quando da terra parecem brotar…

  2. llopes49 diz:

    O cujo deveria ser airosamente mandado para ” a outra Banda “. Onde o sol não entra e não há Flores.

  3. Maria do Céu Brojo diz:

    Está visto! Quando crescer talvez escreva assim.

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