Tonturas

Naquele dia teve tonturas. O mundo gritava de animação, feições pálidas de sorrisos, pernas como linhas destapadas e tudo se moldava ao peso de um qualquer evento importante. As ruas direitas como desfiladeiros de tonturas, e já não havia sombras, o dia caído num tempo que tinha parado.

Nesse dia embebedou-se. Havia pequenos carreiros de formigas no chão de areia lisa, na sombra dos teus olhos eu via planícies, abertas no espaço, como se não houvesse manhãs.

-Como é que vieste aqui parar?

Perguntavas desinteressadamente, ou fingindo, como os pombos que agora levantam voo para emigrar, como tantos outros, talvez para sul.

Não respondes. Haverá respostas para o deslumbramento do amor, na tontura do cheiro da tua pele?

Fintavas a vida com esse olhar perdido, como se o rio afinal fosse deserto, o céu apenas manto difuso, a carícia eterna, o gesto único.

Câmara lenta, tudo passa a ser lentidão, o braço que nos toca, a boca que se molha, e ali ao fundo consigo ver quase tudo, um espaço que se abre agora, e sinto-me cansado, falta-me o fôlego.

O tempo continua a não passar, porque é que tudo parou? As luzes que se apagaram, a estrada que não tem fim, recta no campo infinito onde nascem memórias coloridas. Ninguém nos avisou de que iria ser assim. Com a maresia da manhã a enregelar os ossos, e o teu corpo despido e ainda quente num chão qualquer.

Afinal a música ainda continua, um som que se propaga para além da luz do sol que nasce, (um sopro quente que fortalece a minha tontura), como todos temos de nascer, teimosos e conscientes que ainda não será a última vez.

A última vez que te toco, nesse dia em que me embebedo de tudo, como se fosse para sempre.

 

 

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência. Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra. Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data. A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach. De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro. A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.
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12 respostas a Tonturas

  1. riVta diz:

    ai o vinho …
    🙂
    gosto da voz do RayLaMontagne

  2. Paula Santos diz:

    E das tonturas se faz o fraquejar das pernas cansadas.

    Ainda bem que temos a música que continua. Porque essa é para sempre.

    (muito bonita a voz do Ray)

  3. Maria do Céu Brojo diz:

    E alguém que diga estar ‘out’ o romantismo masculino. Se na minha frente, atiro ao leviano este texto aos queixos.

  4. nanovp diz:

    Apoiado e agradecido!

  5. Está cada vez mais difícil fintar a vida, Bernardo. Falta-nos o teu fôlego.

  6. Não sei se não é duma embriaguez destas que precisamos.

  7. nanovp diz:

    Ás vezes resolve muita coisa…e qual o mal de uma “ressacazinha”?

  8. juan diz:

    Côr, textura, aromas complexos “com o passar do tempo”, sabor harmonioso, casta “romântica”.
    Tem tudo para ser uma boa colheita!

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