You’re the top

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Como é que se aprende a amar? Dirão os técnicos de saúde mental, e os pedagogos em geral, que se aprende em casa. Que é em casa que se recebe o exemplo, que se aprende a dar e a receber o amor. O psicólogo que sou, por (de)formação, dirá o mesmo se perguntado. Mas a verdade é que eu aprendi mais em filmes, canções e livros do que em casa. Se sou omisso nos gestos, volátil no afectos ou excessivo na paixão, culpo, não os meus pais, mas a ficção. Cole Porter foi um dos meus professores.
Aprendi a ler música em pequeno e a tocá-la no piano – ainda que de forma trapalhona. O “Cole Porter Song Book” é um livro de partituras que me acompanha desde os tempos da universidade. Na época, por detrás de uma aparência punk e pós-moderna, havia um clássico, um dandy. Era dos tempos. Uma pessoa era capaz de estar uma noite inteira aos pontapés, ao som dos Clash, e, na noite seguinte, ficar em casa, chorosa, a ver o Brideshead Revisited ou ao piano a tocar Gershwin e Cole Porter de cigarro ao canto da boca. Abençoado pós-modernismo que tudo permitiu naquele tempos felizes. Até hoje, não há semana que não me sente ao piano a dedilhar uma canção de Cole Porter.

Birds do it, bees do it
Even educated flees do it,
Let´s do it, let’s fall in love.

Cole Porter escreveu das melhores canções da música popular. Escrevia para o teatro e para o cinema mas as canções mais populares acabavam tocadas na rádio e nos clubes. Enquanto escrevia grandes canções para os palcos, reescrevia também a história da música popular americana. Não foi só ele; Irving Berlin, George e Ira Gershwin, Rogers & Hart, Jerome Kern e Harold Arlen foram também grandes escritores, os Founding Fathers da canção popular americana. Digo escritores, e não autores ou compositores, porque as canções deles são texto, escrita, oratória.; não são só música. Nelas a música é (o que já não é pouco) comunicação não verbal, o pathos da oratória, digamos. É esse o papel da música nestas canções, um papel que atinge proporções sublimes no caso de Cole Porter que era, a par de Gershwin, um dotadíssimo músico e compositor. Ainda assim as canções de Cole Porter são mais conhecidas pelo texto e por isso as trago aqui.
Textos  quase sempre sobre amor, como seria de esperar, mas, ao contrário do que era norma, textos sofisticados, com sentido de humor, com malícia, innuendo, e muitíssimo urbanos. O amor de que Cole Porter fala nas suas canções é urbano e de todo o tipo.

Love for Sale

Verse:
When the only sound in the empty street
Is the heavy tread of the heavy feet
That belong to a lonesome cop, I open shop.

When the moon so long has been gazing down
On the wayward ways of this wayward town
That her smile becomes a smirk, I go to work.

Refrain:
Love for sale, appetizing young love for sale.
Love that’s fresh and still unspoiled,
Love that’s only slightly soiled,
Love for sale.

Who will buy? Who would like to sample my supply?
Who’s prepared to pay the price,
For a trip to paradise?
Love for sale.

Let the poets pipe of love
In their childish way,
I know every type of love
Better far than they.
If you want the thrill of love,
I’ve been through the mill of love;
Old love, new love,
Every love but true love.

Love for sale, appetizing young love for sale.
If you want to buy my wares,
Follow me and climb the stairs
Love for sale. Love for sale.

“Love for sale” foi escrita para o musical “The New Yorkers” que tinha outra grande canção: “My heart belongs to Daddy”. As duas tiveram problemas com o politicamente correcto da época. A primeira nunca passou na rádio enquanto que para a segunda, Porter teve de escrever novas palavras. Esta é a versão original:

Verse:
I used to fall in love with all those boys who maul the young cuties.
But now I find I’m more inclined to keep my mind on my duties.
For since I came to care for such a sweet millionaire…

Refrain:
While tearing off a game of golf
I may make a play for the caddy;
But when I do, I don’t follow through
‘Cause my heart belongs to Daddy.

If I invite a boy some night
To dine on my fine finnan haddie
I just adore his asking for more
But my heart belongs to Daddy

Yes my heart belongs to Daddy,
So I simply couldn’t be bad.
Yes, my heart belongs to Daddy,
Da-da-da, da-da-da, da-dad.

So I want to warn you, laddie,
Though I know you’re perfectly swell,
That my heart belongs to Daddy
‘Cause my Daddy he treats it so well.

Embora seja de letras de que se fala quando se fala de Cole Porter, a sua música – a melodia, o ritmo e as harmonias – é tão boa como as palavras. É um casamento perfeito de música e letra onde a primeira, graças às sofisticadas e por vezes complexas harmonias, cria o perfeito enquadramento e comentário não verbal ao texto.
É difícil escrever sobre música. Não é impossível, mas é difícil porque é uma linguagem a escrever sobre outra. É sobretudo difícil descrever música. Apesar de tudo vale a pena tentar dando dois exemplos.
O primeiro é o verso do Night and Day (o verso é aquela primeira parte que dá o contexto da canção, como o recitativo na ópera), uma das mais famosas canções de Cole Porter, escrita para a peça “Gay Divorce” (o sentido é divórcio alegre embora hoje se abra todo um mundo de novas possibilidades para este musical). Toda a harmonia do verso, dada pelo baixo, é dissonante com a linha melódica que é de uma nota só. Um recitativo monótono sobre uma cacofonia harmónica que lembra a cidade onde a solidão dada pela ausência do outro, é grande. Vale a pena ouvir. Para já leia-se:

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Verse:
Like the beat, beat, beat of the tom tom
When the jungle shadows fall,
Like the tick,tick, tock of the stately clock,
As it stands against the wall,
Like the drip, drip drip of the rain drops,
When the summer shower’s through;
So a voice within me keeps repeating
You, you, you.

Refrain:
Night and day you are the one…

 

O outro exemplo é a canção “All of You”, da peça “Silk Stokings”, um exemplo de como melodia e letra são uma só. Oiça-se o fim da primeira quadra, quando a melodia que acompanha os pontos cardeais desce, abruptamente, quando se fala do “sul de ti”.

I love the looks of you, the lure of you,
I’d love to make a tour of you,
The eyes, the arms, the mouth of you,
The east, west, north and the south of you.

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I’d love to gain complete control of you
And handle even the heart and soul of you.
So love, at least, a small percent of me, do.
For I love all of you.

 

O amor é como as canções. Tem letra e música e só uma dá sentido à outra. As cartas de amor são ridículas, a maior parte das vezes, porque quem as escreve não é capaz de passar além das palavras, de escrever o tom, o sentimento, de dar música. Nunca uma expressão fez tanto sentido quando se fala de amor: dar música.
Amor e a música são ainda parecidos a outro nível. Todos somos capazes de ouvir uma música, de a entender, ainda que não saibamos escrevê-la, lê-la ou mesmo cantá-la. Ou seja, entendemos mas não produzimos. É uma velha lei do desenvolvimento cognitivo: a produção vem depois da compreensão. As crianças primeiro entendem o que lhes dizem ainda antes de conseguirem falar. É assim com a música e, acredito eu, o mesmo se passa com o amor. Todos, de uma maneira ou outra, o entendem mas produzi-lo…
Como os melómanos, que saltam de concerto em concerto, que ouvem disco atrás de disco, também os amantes do amor saltam de amor em amor só para o ouvir, só para o apreciar, sem nunca o conseguir produzir. Talvez nunca o tenham apreendido quando eram pequenos, como se aprende a falar e a cantar, como se aprendem as letras e as música. Talvez não tenham talento, como tanta gente não tem voz ou jeito para a bola. Já um músico profissional, como o verdadeiro amante, dedica tempo à “sua” música: a compô-la, a interpretá-la a estudá-la. Não quer dizer que não oiça outras, para se distrair, mas dedica tempo, muito mais tempo, à que está a produzir. Em qualquer caso, aprendendo ou não em casa a amar e a ser amado, mais cedo ou mais tarde chega o curso superior. Para mim foi a ficção em forma de filme, livro e, sobretudo, canção.

Verse:
At words poetic, I’m so pathetic that I always have found it best,
Instead of getting ‘em off my chest, to let’em rest unexpressed.
I hate parading my serenading as I’ll probably miss a bar,
But if this ditty is not so pretty at least it’ll tell you how great you are.

Refrain:
You’re the top!
You’re the Coliseum,
You’re the top!
You’re the Louvre Museum.
You’re a melody from a symphony by Strauss
You’re a Bendel bonnet,
A Shakespeare’s sonnet,
You’re Mickey Mouse.
You’re the Nile,
You’re the Tower of Pisa,
You’re the smile on the Mona Lisa;
I’m a worthless check, a total wreck, a flop,
But if, baby, I’m the bottom you’re the top!

Verse 2:
Your words poetic are not pathetic. On the other hand, babe, you shine,
And I can feel after every line a thrill divine, down my spine.
Now, gifted humans like Vincent Youmans might think that your song is bad,
But I got a notion, I’ll second the motion and this is what I’m going to add:

Refrain:
You’re the top!
You’re Mahatma Gandhi.
You’re the top!
You’re Napoleon Brandy.
You’re the purple light of a summer night in Spain,
You’re the National Gallery,
You’re Garbo’s salary,
You’re cellophane.
You’re sublime,
You’re a turkey dinner,
You’re the time of the Derby winner.
I’m a toy balloon that is fated soon to pop
But if, baby, I’m the bottom,
You’re the top!

You’re the top!
You’re a Ritz hot toddy.
You’re the top!
You’re a Brewster body.
You’re the boats that glide on the sleepy Zuider Zee.
You’re a Nathan panning,
You’re Bishop Manning,
You’re broccoli!
You’re a prize,
You’re a night at Coney,
You’re the eyes of Irene Bordoni.
I’m a broken doll, a fol-de-rol, a blop,
But if, Baby, I’m the bottom, you’re the top!

You’re the top!
You’re an arrow collar.
You’re the top!
You’re a Coolidge dollar.
You’re the nimble tread
Of the feet of Fred Astaire,
You’re an O’Neill drama,
You’re Whistler’s mama,
You’re Camembert.
You’re a rose,
You’re Inferno’s Dante.
You’re the nose
On the great Durante.
I’m just in the way, as the French would say, “de trop.”
But if, baby, I’m the bottom,
You’re the top!

You’re the top!
You’re a Waldorf salad.
You’re the top!
You’re a Berlin ballad.
You’re a baby grand of a lady and a gent.
You’re an old Dutch master,
You’re Mrs. Astor,
You’re Pepsodent!
You’re romance,
You’re the steppes of Russia,
You’re the pants
On a Roxy usher.
I’m a lazy lout that’s just about to stop
But if, baby, I’m the bottom,
You’re the top!

You’re the top!
You’re a dance in Bali.
You’re the top!
You’re a hot tamale.
You’re an angel, you, simply too, too, too diveen,
You’re a Boticcelli,
You’re Keats,
You’re Shelley,
You’re Ovaltine.
You’re a boon,
You’re the dam at Boulder.
You’re the moon,
Over Mae West’s shoulder.
I’m the nominee of the G.O.P. or GOP!
But if, baby, I’m the bottom,
You’re the top!

You’re the top!
You’re the Towel of Babel,
You’re the top!
You’re the Whitney stable.
By the river Rhine you’re a sturdy stein of beer.
You’re a dress from Saks’s,
You’re next year’s taxes,
You’re stratosphere!
You’re my thoist,
You’re a drumstick lipstick.
You’re da foist
In da Irish svipstick.
I’m a frightened frog that can find no log to hop,
But if baby I’m the bottom
You’re the top!

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu): “Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”
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10 respostas a You’re the top

  1. Ainda tenho The Cole Porter Songbook pela Ella Fitzgerald. A Jenny Lewis, uma miúda gira da música, tem uma canção onde diz: you are what you love. E isto leva-nos para muito longe da casa onde aprendemos a amar primeiro. Pode não ser ciência, mas nem por isso é menos facto. Gostei muito, Pedro.

  2. juan diz:

    Há frases que só fazem todo o sentido quando terminam com um acorde, consonante ou dissonante.
    Há músicas que só nos preenchem os sentidos quando as palavras se fazem ouvir, cantadas ou ditas. E o sentimento poderá estar mesmo nas pausas das pautas ou no silêncio das entrelinhas.
    É este abandono da superficilidade que me faz gostar do vosso blog.
    Good job!

  3. Passa-se aqui uma tarde inteira. A ler, a cantar. Passa-se aqui uma tarde poética, uma tarde musical. You’re the top, Peter Cole Bidarra.

  4. nanovp diz:

    Sem este ler e este ouvir, e com o cinzento que espreita lá fora, seria a tristeza pura e fria.

  5. riVta diz:

    Não sei como me escapou este post, mas como mais vale tarde que nunca aqui fica:
    – Mais!!!!!
    😀

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