A minha editora faz anos hoje: Parabéns!

Hoje é o oitavo aniversário da Guerra & Paz Editores. Parabéns! A editora não é minha, mas é a minha editora. Pensa que é por isso que lhe estou a desejar Feliz Aniversário? Pois pensa bem. Mas pouco. Há mais. Conto tudo.

A primeira coisa que a Guerra & Paz me deu foi uma tampa. E foi quando se chamava Três Sinais. Enviei um conjunto de poemas, pouquinhos, para muiiitaaassss editoras. Todas, quase. Duas responderam. A declinar, é certo, mas com bons modos. A minha editora escreveu-me uma carta em papel e tudo: não publicamos poesia. Está bem, pensei, perdoo-te. Hoje. O futuro a Deus pertence, eu sou filha de Deus, lailailai – é a minha amiga, a propriedade transitiva.

A segunda coisa que a Guerra & Paz me deu foram meninas. Na realidade, As Meninas. Foi um presente de aniversário, mas no meu aniversário, oferecido por outra minha amiga, a Maria João, a das photos. Porque ela sabia que eu queria o livro, andava a comê-lo com os olhos, gostava dele mesmo analfabeticamente: só pela capa, tão bonita, e os bonecos. Era a thing of beauty ainda antes de ser lido. Depois de lido e relido continua a ser a joy forever. É um dos meus objectos pessoais.

Mas antes disto. (Sim, vou escrever sobre As Meninas.) Sabia muito bem quem era o Manuel S. Fonseca, ainda que ele não fizesse a menor ideia da existência desta sua autora – que falta de futurologia, parece mentira tanta ingratidão, senhor editor!

Posso afirmar que o conhecia de ginjeira: comecei a ler o Expresso aos dezoito anos. Façam as contas. Depois no Semanário. Na Marie Claire – lembram da Marie Claire, foi a primeira revista em português, do género, acho, e bendito entre mulheres e gracinhas femininas, sandálias, vestidos e batons, lá estava o meu senhor editor. Na altura da SIC, confesso, quase perdemos o contacto, mas algumas coisinhas ficaram-me: a ficção portuguesa foi uma delas. Os telefilmes! Amo-te, Teresa e tal. Não estou enganada, pois não? Foi um tempo de esperança em português, claramente pré-acordo-subserviente-ortográfico. De repente, um dia, ligo a televisão e zás, lá estava a editora, quero dizer, o Manuel S. Fonseca estava a dizer na televisão que tinha deslargado a televisão para se atirar aos livros. Pensei: a escrita deste homem enganou-me, quem havia de dizer, afinal é um maluco, um para-suicidário. E foi assim que toma lá poemas, não quero cá poemas.

Uma editora pequenina e independente é um arame de equilibrista quando publica o que talvez, muito provavelmente, não fosse publicado neste Portugal de hoje deprimido e empobrecido. Deixa-nos acreditar no mundo que fala em pré-acordês, e não estou a referir-me só à ortografia, o mundo de quando éramos pequenos e dizíamos com toda a certeza que quando crescêssemos íamos ser… escritores.

Ó. Agora já não tenho espaço para As Meninas. Fica para depois dos Parabéns a Você, G&P.

Merci.

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.
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14 respostas a A minha editora faz anos hoje: Parabéns!

  1. Exceptuando, talvez, a primeira ideia de publicação literária de Guttenberg e, quiçá, a primeira casa editorial argentina do sr. Borges, a Guerra e Paz é, claramente, a melhor editora do Universo conhecido. Noto que poderá haver água em Encelado, a maior lua de Saturno, e na extraordinária Europa, satélite de Júpiter, pelo que este meu veredicto poderá ser revisto no próximo milhão de anos. Por agora, mantém-se.

  2. onésimo diz:

    Parabéns à editora e ao belo trabalho que tem feito.
    Pode um leitor ficar contente com o aniversário ou tem de demonstrar tristeza?
    o.

  3. Mestre Fonseca só quer é celebrar:

  4. riVta diz:

    que coisa linda…parabenizar assim mestre MSF e a sua editora, boa!

  5. Mario diz:

    Como e que possivel, recusar os poemas da menina EV, shame on you Manuel!

  6. nanovp diz:

    Parabéns atrasados ao MSF e à GP, belo orgulho Eugénia…

  7. Maria do Céu Brojo diz:

    Também quero soprar as velas. Mesmo desafinada farei coro nos “Parabéns a Você”

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