Abismo

 

 

A Sereia, 1893 – Giu­lio Aris­tide SARTORIO (1860–1932) | Repro­du­ção auto­ri­zada pela Fon­da­zi­one Torino Musei | Óleo sobre tela mon­tada sobre pai­nel de madeira 58 x 129 cm GAM–Galleria Civica d’Arte Moderna e Con­tem­po­ra­nea, Turim Inv. P/2492, GAM

A Sereia, 1893 – Giu­lio Aris­tide SARTORIO (1860–1932) | Repro­du­ção auto­ri­zada pela Fon­da­zi­one Torino Musei | Óleo sobre tela mon­tada sobre pai­nel de madeira 58 x 129 cm GAM–Galleria Civica d’Arte Moderna e Con­tem­po­ra­nea, Turim Inv. P/2492, GAM

É quando elas se calam que se perde o pé, contou-me um pescador velho que nunca tinha lido Kafka mas sabia bem, por muito ter mareado, que calar-se o imaginar é que enreda a rede nela. Na vida, disse-me. Logo a mim que não sou boa narradora e em mim me enredo. Apronta-se o leitor de generoso ouvido e intento e recomeço embora avise de antemão que menor é o enunciado do que os factos. Sobreviera  a Maria Luísa uma gravidez tardia quando já tanto de esperar desesperara que, como se sabe, é uma forma de conformar-se. No grupo de chegados contavam-lhe os anos, que escondia, e seriam muitos. Tantos que até ela própria teve empolgamentos bíblicos a sentir-se uma Sara a quem a graça demorada de uma bênção divina viesse distinguir por entre os demais. Não lhe acrescentou isso melhoria a um temperamento altivo já de si dado a considerar-se de eleição, mas não é por aí que vamos. Certo é que nada muda sob os céus e a mão divina reaparece sempre a pedir paga do que ofereceu. Cresceu-lhe uma filha alabastrina e ruiva, sem antecedentes genéticos que pudesse reconhecer, na qual uma crueldade de gelar qualquer compreensão encorpava mais a cada ano. Os perversos começam sempre pelo que não tem voz e aí se exercitam. Dos objectos aos pequenos animais domésticos, é por eles que encetam uma carreira de violências e a apuram. Maria Luísa reconheceu, desde o primeiro cantar, que o mal a habitava e quem lhe passasse na rota teria destino de profundezas. Pássaros mortos nas gaiolas, medicamentos trocados nas visitas aos amigos, mentiras despudoradas a intrigar pequenas catástrofes familiares. E as mortes. Não juraria, mas suspeitava. E crescia-lhe um silêncio de culpa cúmplice a tolher-lhe desabafo a quem pudesse pedir que viessem por ela. Pelas duas. Mas galopavam os anos, não as palavras. Até que lhe espiou no rosto a dormência que esperava. Tentara-a com mais uma fatia de bolo antes do passeio. E com outra. Viu-a depois errar sobre as rochas, incerta e cambaleante ao rés do abismo. Esperou-lhe a queda e estremeceu longamente como se duas vezes morresse e de novo voltasse à vida. Às vezes o mar não devolve os corpos, capricho das derivas que os prendem aos limos do profundo. Nisso se firmou Maria Luísa mas não foi o que aconteceu. Da janela do 2º andar viu o esforço do rapaz debruçado sobre a sereia silenciosa. E disse ainda: cuidado.  Depois estendeu a mão para o telefone e marcou um número.

Sobre Ivone Mendes da Silva

Entre lobos e anjos me habituei a escrever. É talvez por isso que, para além de asas e de uivos, as palavras me tropecem e não encontrem sozinhas o caminho das folhas. Nessas alturas, peço para elas a bênção da tristeza, musa de sopro persistente, que triste me faz e a acolhedoras mesas me senta.
Esta entrada foi publicada em Museu das Curtas. ligação permanente.

8 respostas a Abismo

  1. riVta diz:

    «Depois esten­deu a mão para o tele­fone e mar­cou um número.»

    pró 115 certamente.
    😀

  2. juan diz:

    Abismal!

  3. Maria do Céu Brojo diz:

    Ai que escrito perfeito! A Maria Luísa então…

  4. nanovp diz:

    Afinal o mar devolveu…

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