Aos homens tudo é devido

Toda a gente sabe a história da sereia. Da princesa filha do rei dos mares que durante um imenso temporal salva um rapaz de morrer afogado após o naufrágio do navio onde navegava. Toda a gente sabe que ela se apaixonou por ele, afinal príncipe também, mas na terra, e sabe-se que por causa desse amor trocou a cauda de peixe por um lindo par de pernas – para poder partilhar desse mundo dele. Mas também toda a gente sabe que as trocas de natureza têm um preço elevado: as pernas custaram-lhe a voz. Era uma princesa muda. Assim mesmo também o príncipe terá gostado dela – só por um bocadinho, pois quando decidiu casar, casou com a princesa do reino vizinho que tinha voz e reino.

Toda a gente sabe que se a princesa não casasse com ele não teria lugar na terra pois não era da terra. Mas para voltar a pertencer ao mar, retomar a sua cauda de peixe, teria de o matar ela própria antes do nascer do sol sobre a noite da lua de mel: enfiar-lhe um punhal de osso de tubarão na carne. Isso ou transformar-se ia em espuma do mar quando entrasse nas ondas. Parecia fácil matá-lo ao vê-lo tão feliz com a sua noiva, tão esquecido dela. Porém, amava-o e foi assim que, como toda a gente sabe, atirou o punhal ao mar e a seguir jogou-se a si mesma nas ondas e se fez espuma na primeira luz da aurora.

Aos homens tudo é devido porque são as mulheres que os parem. Eles nunca perguntam porque é que ela me ama? Perguntam-se: como é que ela não me ama? Essa é chave.

Penso que Sartorio sabia que a história seria diferente se fosse o príncipe a salvar a sereia da morte.

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.
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11 respostas a Aos homens tudo é devido

  1. Por muito que ele gostasse das novas pernas dela, um rabinho de sereia é uma coisa de que um príncipe que se preze nunca abdica.

    • riVta diz:

      pronto(s) tinha que vir com rabinhos. Já uma p’ssoa não pode ficar pelas pernocas…
      😛
      e logo uma história tanbonita

  2. História bonita, Eugénia, esta sim é uma história de sereias … 🙂

  3. nanovp diz:

    Pois a diferença está na cauda de peixe…aos homens fica-lhes mal…

  4. Pescadinhas de rabo na boca para todos e não se fala mais nisto…

  5. Maria do Céu Brojo diz:

    O que eu gostei de ler!

  6. juan diz:

    Nem tanto ao mar, nem tanto à terra… à beirinha d’água está o equilibrio.
    http://www.pinterest.com/pin/232990980694161900/

  7. Gostei muito Eugénia, as usual 🙂

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