Cinquenta e três anos, sete meses e onze dias

Maria Costa, Love, 6 de Julho 2013

Maria Costa, Love, 6 de Julho 2013

Cinquenta e três anos, sete meses e onze dias foi o tempo que o fiel Florentino Ariza esperou pelo amor de Fermina Daza naquele amor em tempos de cólera que Gabriel Garcia Marquez fez resistir a toda uma vida feita também de desamores, de muitos desamores. O tempo de toda uma vida adulta, que, quantas vezes, é o tempo que nos leva a perceber que nada mais há para saber sobre o amor para além daquilo que Gabo nos disse através da história de Florentino e Fermina. Nesta hora de despedida, e talvez só agora, percebo que lhe devo isso, quando olho para trás e realizo que o amor definitivo que, já bem entrado na vida, julguei descobrir é, afinal de contas, um amor antigo, o mesmo amor dos cinquenta e três anos, sete meses e onze dias que Gabo, tinha eu pouco mais de vinte anos, me deu a conhecer.

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.
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10 respostas a Cinquenta e três anos, sete meses e onze dias

  1. São precisos muito desamores para que valha a pena um amor. Belo tributo, Diogo.

  2. riVta diz:

    coisa bonita de s’d’zer

  3. Maria do Céu Brojo diz:

    A aprendizagem do amor nunca é fácil. Encheu-me as medidas, Diogo.

  4. nanovp diz:

    Na espera está tanto do amor…bela homenagem Diogo…

  5. mónica diz:

    fiel Florentino Ariza? um homem que anotava as conquistas femininas num bloco com as respectivas características de diferenciação e dito fiel ao amor por Fermina, tudo junto no mesmo texto…hmmm GGM!

  6. Diogo Leote diz:

    Não há nenhuma contradição nisso, Monica. Por mais mulheres com que partilhasse a cama, nenhuma o fez trair o amor que tinha por Fermina. Porque não teve outro, a esse amor foi sempre fiel.

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