Coisas do Tempo e da Vida

Hans Hofman

Hans Hofman Provincetown Number One, 1937

Tudo passa. Nada fica. O homem teima em construir o tempo, pedra sobre pedra. Mortal, perdido na eternidade do mundo, agarra-se ao mais pequeno pedaço de terra, amarra ou tábua de salvação, o horror de cair no abismo infinito. Pode ser do pólen, do ar seco e limpo. É sobretudo o ter de parar, ali na esquina, sentar-me num banco qualquer, de madeira, de pedra, sob a sombra de uma arvore. A vida obriga a que se agarre o tempo, que se pare no tempo, para que tudo se não misture numa enorme massa disforme. A vida repete-se, o tempo não. Anos que passam e olho a mesma casa amarela onde o tempo deixou marcas que a pintura não esconde. Parece diferente, como o meu reflexo na sombra do chão, na cidade silenciosa onde alguma tristeza espreita, e quero voltar ali, e ali. Olhar outra vez o mar azul, os campos dourados no fim do verão da paisagem seca interior. Entrar na velha igreja de pedra, sentir o fresco ar que acaricia a madeira escura do soalho polido por milhares de lágrimas que o humidificaram. Quero voltar a parar, para saber se continuo a caminhar. No céu azul revejo uma poeira envelhecida, o vento que passa pelos cabelos traz memórias de viagens inenarráveis, o tempo que se perde, as frases que não se disseram, o mundo que ficou esquecido, ou perdido por detrás da corrida da vida. A vida que se correu sem se viver, a música que foi mesmo o vislumbrar de uma nesga de paraíso. Ali ao fim do dia, o sol dourado babava as montanhas que protegiam a cidade, e dançavas. Os cabelos no ar, os olhos fechados. No meio de uma praia deserta o universo como colapso do teu olhar, sobre o mar bravo silencioso. O tempo ali parado tinha retirado movimento ao mundo, qual quadro passivo numa parede lisa sem historia. Pode ser do tempo, pode ser da vida, o tempo passa a vida fica, e as casas parecem mais velhas, ou mais limpas, e há arvores novas na rua, plantadas por vontades exuberantes, as pessoas estão mais jovens e os sorrisos são contagiantes, as mulheres bonitas continuam a não ter sombra, e o tempo parece não querer parar, prefere confundir-se com a própria vida. Já não se vive, passa-se o tempo. Tive frio na noite escura americana, e senti o calor seco no continente negro. Talvez seja o tempo que quer parar, ou vida que se eclipsa num momento, na saudade de uma folha caída, no terror de um torrão de areia que se desfaz, na corrente do rio que leva a caruma dos pinheiros até ao delta que se abre ao mundo…talvez seja o olhar difuso, sobre o tecto celestial onde se reflecte a tua face lisa, ou o som puro que atravessa a montanha verde, e alaga-nos os olhos, porque lembramos a vida sem tempo, a vida sem o pensar, os corpos que correm mas não se cansam, as mãos que acariciam sem parar, bocas abertas com sorrisos da alma. O sabor doce da fruta na luz da manhã. Viver é uma questão de movimento.  O tempo é o relógio da vida. Não interessa viver depressa, não interessa chegar mais cedo, antes do tempo.  O tempo não tem tempo a não ser o tempo da vida, marcado e remarcado para cada um de nós, de forma diferente.Parar no tempo e dar sentido à vida. Pensar não ocupa espaço mas gasta o tempo, e pode-se viver no pensamento sem envelhecer na vida.

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência. Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra. Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data. A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach. De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro. A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.
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8 respostas a Coisas do Tempo e da Vida

  1. Maria do Céu Brojo diz:

    Belíssimos a tela, o texto e os pensares. Não mereciam que, ignorando a sua publicação, pespegasse a minha imediatamente a seguir.

  2. Bernardo a pintura tem um bocadinho de ti ♥

  3. Imparável, Bernardo, tudo é um rio, o texto, a vida, o tempo, a juventude, a cansada velhice.

  4. Bernardo, Larkin tem um poema muito pequenino. Este:

    What are days for?
    Days are where we live.
    They come, they wake us
    Time and time over.
    They are to be happy in:
    Where can we live but days?

    Ah, solving that question
    Brings the priest and the doctor
    In their long coats
    Running over the fields.

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