Histórias de guerra e paz

Oito Anos

A Eugénia já se antecipou aqui com um lindo e bem cantado “parabéns a você”, e é mesmo verdade, a Guerra e Paz faz hoje oito anos. Para fazer a festa, lá na editora, decidimos reeditar, com novo tratamento gráfico e num caso até em formato novo e acrescentado de um conto, dois livros de que Agustina Bessa-Luís é a autora. Um deles é o “Livro de Agustina”, única autobiografia assumida de Agustina.

O_Livro_de_Agustina_Bessa-Luis

Este é o primeiro Livro de Agustina. Ainda era só o tempo da Três Sinais

 

Foi outro livro que me trouxe a esse “Livro de Agustina“. Um dia, em 2001, ainda a editora era só Três Sinais e tinha uma romã desenhada pela Teresa Conceição como logo, desafiei Agustina para escrever sobre a pintura de Paula Rego. Agustina aceitou e começava assim: «Ouvi a Paula Rego ao telefone e a voz dela não me agradou.» Em vez da crítica, em vez de delícias analíticas ou juntamente com elas, Agustina mergulhava o leitor no romanesco, nos gestos quotidianos, na biografia. “As Meninas”, como se chamou esse livro, inscreve detalhes biográficos – provocante, provocador? – em cada tela de Paula Rego: a infância, o pai, a quinta da Ericeira, a mulher madura, a primeira neta.

Como era possível que Agustina nunca tivesse aplicado a si própria essa vontade e gosto de biografia? «Somos sempre muito faladores com o insignificante e muito calados com o que nos assusta», explica-nos ela. Um ano depois, em 2002, pedi-lhe que, contando a sua própria história, escrevesse para «dar face ao medo», que foi como ela disse que Paula Rego pintava. Nasceu assim este livro, que começou por se chamar Fotobiografia de Agustina, título que ela corrigiu, à mão, no muito pouco burocrático contrato que assinámos, para O Livro em Pessoa ou A Lei do Grupo, tendo este último ficado como título de abertura no miolo da obra.

De “O Livro de Agustina” disse a sua autora que era «… a minha história que a memória abreviou, quando não é que a modéstia a repreende». Uma história que Agustina quis parcial, terminando no 25 de Abril, porque se propunha e nos prometera escrever uma segunda parte. Os deuses, os extraordinários deuses da memória, quiseram que ficasse assim, obra inacabada, uma capela só, sem a segunda que faria a perfeição do todo.

«Voltamos sempre ao local de partida», ensina-nos Agustina. Hei-de agradecer-lhe por toda a vida este livro, que, como todos os seus livros, mas com uma insuperável intimidade e fidelidade, conduz os leitores, e eu serei sempre um deles, ao local de partida.

Mas há mais Agustina e histórias dela na história da Guerra e Paz Na tarde do dia 10 de Abril de 2006, no Auditório 2 da Fundação Calouste Gulbenkian, com a inadjectivável satisfação de ter ao meu lado, na mesa, o João Bénard da Costa, nasceu a Guerra e Paz editores. Os primeiros livros apresentados nessa sessão eram a «Correspondência» de Jorge de Sena e Sophia de Mello Breyner e «Fama e Segredo na História de Portugal», de Agustina Bessa-Luís, que é uma brilhantíssima e delirante apresentação de 12 figuras históricas. Ao meu lado e do João Bénard, Agustina devia ter presidido a essa sessão, mas um problema de saúde forçou a que a sua amiga Inês Pedrosa a substituísse. Agustina não voltou a recuperar, como todos os que a admiramos sabemos, e foi esse o último livro que escreveu para mim.

Uma editora é uma casa de histórias. Um lugar de drama, por vezes de comédia, um lugar de conversa e um lugar de pensamento. Tudo isso, ao longo de oito anos, foi também a Guerra e Paz Editores. Já publicou Eça, Camilo, Camões e Pessoa. No arranque, a editora viveu sobretudo de desafios. Convidou, por exemplo, Eduardo Prado Coelho para fazer uma radiografia dos símbolos cultos ou populares que são uma marca da identidade portuguesa. Nasceu assim «Nacional e Transmissível», um livro surpreendentemente confessional, delicadamente íntimo, o livro em que Eduardo Prado Coelho se despede, tranquilo, irónico, sedutor, da vida e de Portugal.

Houve fracassos e sucessos. O maior de todos, com vendas que atingiram os 170 mil exemplares, foi «Maddie, A Verdade da Mentira», da autoria do inspector Gonçalo Amaral. Hoje, a colecção mais popular da editora é o «Clube do Livro SIC», nele se publicando testemunhos, livros de entrevistas e de auto-ajuda, romances.

A Guerra e Paz é uma casa de histórias, mas é também uma casa de reflexão. Os seus «Livros Politicamente Incorrectos» andam à procura de leituras controversas da História, da actualidade e das artes portuguesas. É uma colecção onde se escreve hoje o que se há-de pensar amanhã.

Recentemente, iniciou-se uma colaboração com a SPA, criando-se «o fio da memória», colecção que quer registar, contra o esquecimento, pela palavra dos próprios, vidas e obras que marcaram Portugal, como seja o caso dos livros de e sobre Eduardo Lourenço e Cruzeiro Seixas. Esta é a Guerra e Paz Editores, que acabou de publicar «Portugal,  A Economia de uma Nação Rebelde», de José Manuel Félix Ribeiro, e há-de publicar, a seguir, «Retratos de Camões», de Vasco Graça Moura.

Comigo trabalham a Tânia Raposo, o Ilídio Vasco, o José Cardoso, o Américo Araújo, a Vânia Custódio e a Carla Castela. É esta a Guerra e Paz. Oito anos, 294 títulos publicados, porque é preciso virar a página.

Agora, caros leitores, façam o vosso trabalho. Comprem livros. De vez em quando, também um da Guerra e Paz. Ou dois. Estes dois de Agustina, se querem ser superiormente servidos, pela mão de Paula Rego e de Agustina.

Agustinas

Estes são os lindos livros feitos pela actual equipa. Colecção Três Sinais, edição Guerra e Paz

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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17 respostas a Histórias de guerra e paz

  1. riVta diz:

    «(…)Comigo tra­ba­lham a Tânia Raposo, o Ilí­dio Vasco, o José Car­doso, o Amé­rico Araújo, a Vânia Cus­tó­dio e a Carla Cas­tela. É esta a Guerra e Paz. (…)»

    Só alguém maior para chamar a equipa em dia de festa. Parabéns Mestre.

  2. Feliz Aniversário, para si, para a equipa. VIVA a G&P!

  3. ERA UMA VEZ diz:

    Junto as minhas felicitações também.

    Sei que em breve a Guerra e Paz me vai dar uma grande alegria. Só não posso dizer porquê!!!

    PARABÉNS.

  4. Diogo Leote diz:

    Muitos parabéns, Manuel! Muitos anos de paz para a tua Guerra.

  5. António Barreto* diz:

    Parabéns, Manuel, que a sua editora continue a brindar-nos com belas obras.

  6. nanovp diz:

    Parabéns Manuel para ti e toda a Guerra e Paz…resistir e manter as convicções deve ser papel de todos, porque tão fácil parece ser o desistir…

  7. juan diz:

    Percebe-se pela sua escrita a paixão que o move.
    Neste dia glorioso até contou com o hino cantado por milhares… que é a outra paixão.
    Parabéns!

  8. Maria do Céu Brojo diz:

    Como estou feliz!

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