Plágio Descarado

Bo Bartlett

Bo Bartlett

Homem que me perdoe, mas sedução é fundamental

Precisa de caráter e verdade transbordantes como vulcão

Que o olhar derrame lava e urgência

Misturar nos gestos tango e valsa lenta

Ter sorriso de que apeteça descobrir os mistérios e rir com eles

Possuir mais do que órgãos e pele

Que ao falar lembre poema de Larkin

Água límpida brotando do espírito

Fonte oculta de que apeteça beber

Espírito com olhos e nádegas

E mãos. Nunca húmidas

Serenas e ousando um regaço de mulher

O olhar tem de ser corajoso e denunciar pitada de luxúria

Puxar pontas da alma e passear no corpo da mulher

Com vagar

Postura ereta, jamais vergada ao peso da vida

Queixo direito assente em pescoço sólido capaz de afrontar borrascas

Costas largas sustendo manto invisível que envolva e inebrie a mulher

Sedução é simplicidade

Tem um quê de fugidia

Enigmática

É ave sem gaiola

Quer largueza de espaço perfumado com hortelã e poejos

Cheiro selvagem a terra viva no corpo da mulher

Aberto ao desejo

Sujeito à lua e marés

Arribado à praia e recuado, depois, ao mar

Eterno e efémero

Homem precisa ser revolto e fundear carícias

Suave ao lamber a pele

Tem de ser barco, vela enfunada, âncora

Embriagante como medronho

Remar no «vai-e-vem» voluptuoso

Sedução não vem nos manuais

Não se alimenta de fantasias de catálogo

Sedutor cria, não recicla o visto e feito

Sedutor não é quem quer – não se aprende dom que a nascença esqueceu

Pululam sedutores de pacotilha

Imitações, cópias de pérolas

Fancarias para noites de verão

Desbotadas ao raiar da aurora.

Inspirado em “Receita de mulher” de Vinícius de Moraes  

Publicado em http://sempenisneminveja.blogs.sapo.pt/423800.html a 14 de Maio de 2005.

Sobre Maria do Céu Brojo

No tempo das amoras rubras amadurecidas pelo estio, no granito sombreado pelos pinheiros, nuas de flores as giestas, sentada numa penedia, a miúda, em férias, lia. Alegre pelo silêncio e liberdade. No regresso ao abrigo vetusto, tristemente escrevia ou desenhava. Da alma, desbravava as janelas. Algumas faziam-se rogadas ao abrir dos pinchos; essas perseguia. Porque a intrigavam, desistir era verbo que não conjugava. Um toque, outro e muitos no crescer talvez oleassem dobradiças, os pinchos e, mais cedo do que tarde, delas fantasiava as escâncaras onde se debruçaria. Já mulher, das janelas ainda algumas restam com tranca obstinada. E, tristemente, escreve. E desenha e pinta. Nas teclas e nas telas, o óleo do tempo e dos pinceis debita cores improváveis sem que a mulher conjugue o verbo desistir. Respira o colorido das giestas, o aroma dos pinheiros nas letras desenhadas no branco, saboreia amoras colhidas nos silvedos, ilumina-a o brilho da mica encastoada no granito das penedias.
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6 respostas a Plágio Descarado

  1. Júlio diz:

    Muito profundo, lindíssimo e muito bem escrito.
    Freud, Vinicius, Delon, Cloney e bem lá no fundo da fila…eu próprio, todos enxangues, estamos a digerir, dissecar, descodificar cada “statement” teu, numa auto-análise de dúbia e questionável pontuação. Exigente o critério, mas assertivo!

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Muito obrigada, Júlio. Já tinha esquecido isto – quase uma década passou. Num acaso, encontrei-o. Não o leves a sério, conquanto corresponda exatamente ao que penso hoje.

  2. querida Céu, mais plágio que o Toni da Fatinha não há pelo que está mais do que perdoada.
    😀

  3. E cada vez mais, ano a plagiar outro ano, a vida pesa e o homem vai de medronho a licor de anis. Até o álcool já é, Maria do Céu, uma fancaria. (Bom plágio, o seu)

  4. cc diz:

    Mesmo como utopia, alegra-nos os dias 🙂
    ~CC~

  5. nanovp diz:

    Não há plágio que resista a estas palavras e a esta música…a vida plagia-se a ela própria.

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