Poema de Sexta-Feira Santa

DAS SETE PALAVRAS DE CRISTO NA CRUZ

Tenho estado só como quem acredita
na companhia do Amor.
E isto por culpa da maldita
Paixão de Cristo e da Procissão do Enterro do Senhor,
cadáver à frente, a abrir com a sola dos pés
caminho aos anjos disfarçados de meninos
com asas de feira e luz de purpurina,
ao desfile das nossas senhoras pré-menstruais
sem idade para faça-se a tua vontade,
e a um escuro terrível de velas a abrasar a noite,
pois só nas chamas negras os andores levitam
sem a escravidão do corpo avenida acima,
e ao alto a igreja e o bispo a vociferar:
no Enterro estão todos aqui
mas na Ressurreição quero ver quem estará.
Fera a rugir à solta pela acústica perfeita.
Não ensinaram a teologia dos homens
aos padres de quando eu era pequena
e o ar tinha a cor do frio quando respirávamos
e em redor dos círios de má parafina queimavam-se
os cartuchos de papel – peguei fogo à mantilha
da senhora da frente e ardi logo no inferno porque
os santos também tinham cabelo de gente e roupa
tenebrosa em veludo roxo mortuário igual ao faqueiro
de estimação da minha avó, um monstro com pega
em pele de cação como o da sopa –
um jazigo para soldadinhos de chumbo derretidos
sem as suas bailarinas, que miséria de destino,
nascer soldado para acabar numa daquelas facas medonhas,
num garfo, numa colher,
sem ninguém que dançasse para eles que nem
para comer serviam, só para enfeitar de susto e noite
o móvel de si já tão preto como a mantilha em fogo,
tão preto como o cabelo de Maria Madalena, verdadeiro.
Jesus enterrava-se no cimo da avenida quando
a procissão dava em missa
e os pequenos jesuses com as suas cruzes de esferovite
forradas a tafetá castanho corriam a bater com elas nas costas
pelas naves laterais, prematuros ressuscitados.
Eu usava carteira, ganchos no cabelo, muito composta,
talvez Deus me perdoasse do incêndio da mantilha
e me transformasse as botas ortopédicas em sapatos de verniz,
talvez, se ao menos fosse como a Anita Dona de Casa…
mas minha avó afligia-se das donas de casa, benzia-se só de ouvir
água benta, padre, santos, era tudo Deus me livre, Deus livrava-a
pois ali estava Cristo morto e bem morto de obediência ao Pai
até à missa de domingo de manhã.
Das sete palavras de Cristo na cruz, antes de morrer
e de o enterrarmos,
a mim que tenho estado só
como quem acredita na companhia do Amor,
serve-me esta: está consumado.
Prefiro estar só como quem acredita na solidão.

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.
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12 respostas a Poema de Sexta-Feira Santa

  1. ERA UMA VEZ diz:

    Cara Eugénia

    A propósito de Semana Santa, já enviei este pequeno poema à nossa Maria do Céu.
    Depois do que aqui escreveu, não resisto a partilhá-lo também consigo.

    Foi escrito por Miguel Torga quando aproveitava estes dias (anos 50) e se refugiava na Serra da Arrábida a convite de Sebastião da Gama

    REFÚGIO

    Sózinho a ouvir o mar que não diz nada
    férias do mundo e de quem lá anda
    concha de ouriço mas desabitada
    aberta ao lençol da areia branca

    Não se lembrem de mim esta semana!

    Matem o Cristo e ELE QUE RESSUSCITE
    Eu, nesta angústia humana ou desumana
    quero apenas que o sono me visite

    • Muito obrigada, cara Era Uma vez. Sabe, tenho algures uma Antologia do Torga que comprei nos anos oitenta e sete ou oito, tinha para aí dezoito ou dezanove anos. Ainda bem que me a recordou, a ver se a encontro…

  2. Não sei se este seu poema é muito católico, mas é um belo poema da Paixão. É daqueles que há–de cá estar para a Ressurreição.

  3. riVta diz:

    e re-Ressurreição & so On

  4. Maria do Céu Brojo diz:

    Que dizer sobre poema tão perfeito? Fico-me pelo infinito gosto que senti.

  5. nanovp diz:

    Há um peso na semana santa…ainda bem que também há poesia Eugenia!

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