Porque cheira a perfume na Catedral?

 

Gaitán

Gaitán é um desses intuitivos que já não se resignam a viver com a física newtoniana no dia-a-dia

Como é que hei-de dizer? Evola-se, é isso o que quero dizer: evola-se do relvado um aroma fresco com notas picantes, toques suaves de gengibre e pimenta preta. De Luisão a Garay, de Enzo Pérez a Markovic, a Catedral rescende a Calvin Klein One, a Red Edition, está claro.

Foi esta noite. Uma noite de gala. Mas não estejam a pensar em pompa e circunstância, em casaca, cartola e sapatos de verniz. Foi uma gala de miúdos felizes. Podia ter sido só um jogo de futebol, um desses jogos de futebol calculistas, geridos a espartilho e negra táctica. Não foi. O futebol joga-se, sabem, com uma bola. Redonda. Pois bem, caiu sobre esse esférico uma gota de Valentino Uomo. Dizem que é em Grasse, na Côte d’Azur, que nascem os génios de fragrâncias e aromas. Não é. A gota de Uomo que deslizou, perfeita, sobre a bola, tinha a assinatura de Nicólas Gaitán, um miúdo de San Martin. Um garoto argentino de 26 anos.

O futebol joga-se com pernas velozes, o peito do pé a encher-se de bola, mas a gota de perfume de Gaitán saiu do seu calcanhar. Encostado à linha, fugindo pela esquerda, Gaitán tinha cinco centímetros para se mexer e um defesa de dois metros cúbicos para ultrapassar. Gaitán é um desses intuitivos que já não se resigna a viver com a física newtoniana no dia-a-dia. Com um quântico toque de calcanhar ultrapassou o adversário. Não interessa que o prosaico defesa o tenha ceifado a seguir. O perfume desse toque de calcanhar subiu no ar, numa espiral de alegria, numa gargalhada de puro deleite. Ars gratia artis.

Noutro desses momentos a que talvez possamos chamar eternidade, Gaitán, com o seu corpo que não sei se é gaúcho, se é andino, apontou da linha lateral para a meia-lua da grande área. Fez, portanto, dizem, uma diagonal. Como o caminho estava semeado de escolho, evitou-os a todos. Eram três defesas – ou talvez fossem quatro. Podiam ser cinco. Gaitán passeou-se entre eles como um rio de prata. Os narizes mais apurados sentiram que o cheiro do Bentley For Men Azure inundava a noite de luz. Centrou e é desinteressante saber o que aconteceu depois. Podia ter sido golo, mas Rodrigo preferiu não o marcar. O golo seria o facto definitivo, irreversível, quase injusto: pareceria mais importante do que o desenho que Gaitán fizera antes no relvado. Assim, foi um ziguezagueante borrifo de perfume que podia ter sido golo. Luxo pelo luxo, volúpia apenas.

Nicólas Gáitan, argentino, joga futebol como um mata-moscas: a bola cola-se-lhe ao peito, vem encostar-se à coxa, aninha-se-lhe no calcanhar. Esta noite, também lhe aconteceu, com um quase imperceptível movimento do bico do pé, pintou com a bola um arco gótico, servindo Lima para outro golo que, de tão feito, o brasileiro nem o quis marcar. Foi a gota de colónia, de Acqua di Parma, que inundou de sândalo e rosas aquela ampla Catedral.

É um menino. Veste camisola vermelha, berrante. Mora na Catedral. O seu ofício é um ofício de menino, a alegria. Cheira bem a alegria dele. Cheira a CK One. Red Edition, está claro.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

9 respostas a Porque cheira a perfume na Catedral?

  1. riVta diz:

    momento «pub»
    😀

  2. onésimo diz:

    Ena, que prosa! A gente até vê a bola a delirar campo fora….

  3. Diogo Leote diz:

    Manuel, eu já sabia mas agora confirmo: estás para as palavras como o Nico está para a bola. Com a grande vantagem de que tu nunca dormes (ao contrário do argentino que de vez em quando tiras umas sestas em campo).

  4. Ó Manuel Fonseca, isto contado assim há-de dar vontade de ser benfiquista até a quem é saberá Deus o quê…

  5. nanovp diz:

    E não te contratam para PR das águias?

Os comentários estão fechados.