Um texto raro de Vasco Graça Moura

VGM profetas

Fará em Novembro 13 anos, para a minha primeira editora, a Três Sinais, para prefaciarem os diferentes livros da Bíblia, convidei personalidades da cultura portuguesa como Eduardo Lourenço, Agustina, João Miguel Fernandes Jorge, Manoel de Oliveira, João Bénard da Costa, José Pacheco Pereira. E convidei, claro, Vasco Graça Moura. Os textos saíram numa edição hoje raríssima, com cada um desses Livros em edição individualizada, reunidos numa caixa de acrílico. Agora que nos despedimos dele, peço-vos que leiam este belíssimo trecho do texto de Vasco Graça Moura,.

Vasco Graça Moura e a voz dos profetas

Homero e o primeiro Isaías são as duas figuras «literárias» matriciais da nossa civilização. Praticamente contemporâneos (século VIII a. C.), o poeta de Smirna e o profeta de Israel fizeram ouvir a sua palavra em dois lugares não muito distantes, mas em coordenadas culturais muito diferentes.

Homero cantou os deuses do Paganismo e as façanhas dos heróis na guerra e na aventura pelo oceano dos mitos, explorando nas suas epopeias duas ideias-força que ainda hoje nos tocam profundamente, porque profundamente ligadas à condição humana. Como notou Franco Ferruci, a guerra de Tróia pode ler-se como a metáfora do assédio inelutável de uma Helena identificada com a felicidade perdida, enquanto a viagem de Ulisses pode funcionar como metáfora cósmica da viagem como regresso.

Porque criou literariamente os deuses, há quem diga que Homero é o pai deles. Muito diferentemente, o primeiro Isaías investiu-se na utilização da palavra como instrumento ao serviço de Deus. A felicidade perdida com que acena não é, pois, uma Tróia assediada, mas um reencontro do homem com Deus. A viagem que comina nas suas invectivas implica um regresso ao favor da divindade, de algum modo uma «nostalgia» (de nostos + algia, dor do regresso) do Paraíso perdido.

Homero e o primeiro Isaías: ambos exploram longamente a memória, ambos foram longamente transportados pela tradição oral, ambos sofreram interpolações, ambos tiveram continuadores e epígonos, ambos conheceram finalmente versões canónicas e versões críticas sob a forma escrita, ambos marcaram profundamente o curso dos séculos. Homero transformou a sua matéria num canto do valor humano posto à prova ante a adversidade. A voz de Isaías inscreve-se numa série de profecias da desgraça que havia de atingir o povo eleito por se afastar dos preceitos de Yavé.

Era essa a função do profeta, iluminado pela sua relação com o criador do Mundo. Exortar o auditório a conformar-se com a vontade de Deus directa­mente comunicada ao seu mediador, ameaçar o povo de Israel com os mais ter­ríveis castigos se deixasse de trilhar esse caminho, criticar o poder quando resvalava na opressão dos mais fracos, impedir o resvalamento no politeísmo, zurzir acerbamente o mero desempenho formal das obrigações religiosas. Mui­tas dessas punições se prendiam com os desastres da guerra, como era inevitá­vel, uma vez que se tratava de venerar o senhor dos exércitos.

Nas sete fases por que se desdobra a tipologia de Northrop Frye relativa à Bíblia (Criação, Revolução, Lei, Sabedoria, Profecia, Evangelho e Apocalipse), a profecia ocupa o quinto lugar. Isaías não é o primeiro profeta e até surge muito depois dos primeiros grupos estáticos que atingiam o transe com a ajuda da música (I Samuel 10: 5-6), Moisés chegou a ser considerado o maior dos profe­tas hebreus (Deuteronómio 34:10), Amos negou que fosse profeta (Amos 7:14). A história de Israel, dos primórdios até pelo menos ao século IV a. C., é indis­sociável do profetismo. É nos Livros dos Profetas que o verbo divino retumba obsessiva e sistematicamente nas vozes desses agentes de Deus que, por sua vez, intervêm em nome dele na circunstância do seu tempo.

A relação do profeta com o futuro, muito embora acene escatologicamente aos homens com o leite e o mel da terra prometida, faz-se pelas metáforas do pesadelo e da catástrofe. E nesses enunciados que irrompem, aqui e ali, a flagrância e o concreto da vida, como mais tarde, no Dante da Divina Comédia.

O profeta, ao contrário de Homero, não é um cultor das letras, muito embora os especialistas encontrem nos seus textos uma pujante capacidade de utilização de recursos literários típicos da criação não escrita e da tradição por via oral que implica apoios para a memorização (aliterações, paronímias, rimas internas e outros aspectos ligados à sonoridade das palavras, jogos de sentido, etc.), mesmo quando a autoria não é única e raramente o terá sido.

Percorramos algumas sínteses devidas a especialistas modernos. «O Livro de Isaías é uma colecção de colecções», afirma Luis Alfons Schökel . As necessidades da improvisação oral, para fins de melhor retenção por parte dos ouvintes e dos futuros retransmissores, explicam muitos desses processos. Schökel analisa al­guns, mas a sua plena apreensão implica o conhecimento do Hebraico. De qual­quer maneira, é mais problemático falar em estilos pessoais, embora haja traços específicos que os distinguem, como Schökel também nota, exemplificando que Isaías é objectivo e retórico, enquanto Jeremias é dado a irrupções líricas. Joel Rosenberg fala em estilos separados em Jeremias, considerando Ezequiel mais homogéneo e salientando, neste, «a radical subordinação dos sentimentos hu­manos do profeta à intenção divina». Quanto a Jonas, James S. Ackerman sinte­tiza bem a diferença: «enquanto os profetas maiores e os profetas menores são essencialmente colecções de oráculos, Jonas narra as aventuras de um profeta que luta contra o mandato divino.» Por sua vez, Daniel, «adopta e desenvolve certas tradições bíblicas, deslocando-se do género da profecia para o do apocalipticismo» (Shemaryahu Talmon).

O profeta é alguém cuja força encontra uma violenta mais-valia na quali­dade da expressão literária oral e na terrível energia que se liberta das suas metá­foras, alguém cuja voz é memorizada por discípulos e ouvintes, transmitida de geração em geração, invocada como preceito e ensinamento. «The prophets were not writers, but speakers», insistem Eric Meyrs e John W. Rogerson.

Da mais variada condição social (Isaías estava próximo da corte, Ezequiel era sacerdote, Mica governava uma província) e com trajectórias muito dife­rentes cujo risco chegou a envolver a privação violenta da vida, os profetas fos­sem ascetas ou funcionários, colaboradores do poder político ou pregadores às massas, viviam uma iluminação interior que os punha em contacto directo com a divindade e não pretendiam mais do que traduzir desassombradamente essa vivência com eficácia avassaladora.

Nessa tradução condenam sem dó nem piedade os infractores. Há no dis­curso do profeta, simultaneamente, um embrião do estado de Direito, porque ele fala da norma, e um embrião da deriva totalitária, porque dessa norma ele apenas conhece a rigidez, a necessidade de tudo ser sacrificado em nome dela, a submissão integral do ser humano aos seus ditames, a punição irremediável do desvio se não houver essa conformidade. Não se pode falar da compreensão das fraquezas, nem do sentido da equidade ante as circunstâncias do caso concreto, nem da individualidade da pessoa. Os profetas são o que são na sua violência abrasadora e Yavé é um ser permanentemente insatisfeito com as imperfeições da sua criação.

Mas há também efeitos políticos mediatos decorrentes da sua função. Israel sobreviveu ao exílio em Babilónia porque os grupos proféticos viam o cativeiro como castigo, mas acreditavam na restauração de Jerusalém. Os pro­fetas pesam assim no curso da História.

George Steiner recorre à «intemporalidade» dos tempos verbais em Hebreu, que confere ao futuro «um estatuto gramatical dentro do presente» para explicar que o que haveria de vir, que normalmente ligamos ao sentido e à função da profecia, se perfaça assim «no próprio instante da enunciação». Os juízos de Deus são por isso eternos, pelo que não é a natureza oracular o mais importante, mas sim «a reiteração, através de lábios humanos, da vontade e dos desígnios eternos de Deus, do Seu investimento na humanidade».

Esse apogeu de exigência e de intimidade éticas entre Deus e cada ele­mento do seu povo (as expressões são também de Steiner) traduz o diálogo entre a eternidade e o tempo em que os profetas de Israel «continuam a exasperar o longo sono da consciência humana».

Tanto Steiner como Frye, cada um à sua maneira, filiam na obra dos pro­fetas as grandes heresias do Judaísmo e os grandes credos revolucionários, de Savonarola a Marx. Entre as invectivas eloquentes da ira e o vasto fôlego poético de cada voz que as formula, eles aí estão. Cá por mim prefiro Homero, que não era servo de Deus mas criador dos Deuses pela palavra.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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9 respostas a Um texto raro de Vasco Graça Moura

  1. Que maravilhoso texto – desconhecia-o, ainda bem que o trouxe. Que linda dívida de gratidão temos com Vasco Graça Moura.

  2. adelia riès diz:

    Obrigada.

  3. António Neves diz:

    “…Os tex­tos saí­ram numa edi­ção hoje rarís­sima, com cada um des­ses Livros em edi­ção indi­vi­du­a­li­zada, reu­ni­dos numa caixa de acrí­lico…”
    E para quando a continuação desse belo trabalho. Acho que ainda faz sentido.
    António

  4. riVta diz:

    raro neste caso é muito bom

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