Uma noite no sótão: a dançar descalço com Faulkner

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Faulkner e as montanhas de LA atrás. Nos braços dele Meta Carpenter, secretária de Hawks. Foram amantes, amantíssimos, durante 18 anos.

Há 26 anos, no falecidíssimo “O Semanário”, por causa de um ciclo na Cinemateca, escrevi estas cinco histórias, pretensamente exemplares, sobre a relação de William Faulkner, o escritor que Hollywood, a malas cheias de notas de dólares, pôs como “argumentista” no seu payroll. Faulkner deu-se com o cineasta Howard Hawks como o calcanhar de Nico Gaitán com a bola.

 Faulkner e Hollywood, histórias exemplares 

  1. Foram à pesca. Faulkner e Howard Hawks foram à pesca e levaram o actor Clark Gable com eles. Gable sabia que Faulkner devia ser um intelectual e perguntou-lhe quem eram os melhores escritores. “Ernest Hemingway, Willa Cather, Thomas Mann, John dos Passos e William Faulkner” respondeu Faulkner, sem falsa modéstia. “Você escreve, Mr. Faulkner?”, surpreende-se o actor. “Sim, Mr. Gable. E o que é que o senhor faz?
  2. Antes de conhecer Faulkner, Hawks leu por acaso “Soldier’s Pay”. Leu e disse em Hollywood que descobrira o mais talentoso escritor daquela geração. Quem conhecia a sua inclinação para reco­nhecer talentos, levou-o a sério e correu às livrarias. Do mesmo autor tinha já saído um novo romance, “O Som e a Fúria” que confirmava tudo. O nome de Faulkner co­meçou a saltar de boca em boca. Hollywood, claro, convidou-o. Ha­verá quem lamente e ache que foi desperdício, uma imoralidade. Só que “escrever por dinheiro”, segundo Faulkner, “não é propriamente prostituir o talento, mas encurtar as fra­ses.
  3. A amizade de Hawks e Faulkner foi mais longa e bela do que a de Bogart e Claude Rains, em “Casablanca”. Mas a colabora­ção deles não escapa a alguma ambi­guidade. Faulkner escrevia com uma técnica comparável à do cinema europeu experimental e vanguardista dos anos 20. Muita montagem, flash-backs, justaposição de realidade e fantasia. Mas Hawks explicou-lhe que deveria ser outro o seu horizonte: “A primeira coisa que quero é uma história. A seguir que­ro personagens. Depois salto sobre tudo o que tu pensas que tenha interesse.
  4. Faulkner terá sido — ao contrário de Scott Fitzgerald e Raymond Chandler — o escritor que mais bem resistiu a Holly­wood. Em Fevereiro de 1949, a MGM pagou-lhe 50 mil dólares pelos direitos de “Intruder in lhe Dust”. O livro só tinha saído há um mês. Ficou tão contente que disse: “Tenho direito a embebedar-me e a dançar descalço.
  5. Hemingway riu-se quando Hawks lhe disse que faria um bom filme do pior li­vro dele. “Qual é o meu pior livro?”, perguntou. “Aquele pedaço de lixo chamado ‘To Have and Have Not” respondeu Hawks. “Ninguém consegue fazer um fil­me daquilo” ripostou Hemingway. “OK. Arranjo o Faulkner para o fazer. Seja como for, ele escreve melhor do que tu.” O que é que Hemingway terá sentido? Ciúme ou lisonja? Ele e Faulkner admira­vam-se e temiam-se. Cada um deles era unha com carne com Hawks, mas nunca os dois, juntos, se encontraram com ele. Intrigavam junto de Hawks para saberem tudo um do outro.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

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9 respostas a Uma noite no sótão: a dançar descalço com Faulkner

  1. riVta diz:

    gostei de conhecer estas suas histórias

  2. Faulkner recebeu cinquenta mil dólares. E o Manuel Fonseca o que recebeu para entrar na dança descalça e celebratória?

  3. Maria do Céu Brojo diz:

    O que este primo sabe, valham-me os deuses!

  4. nanovp diz:

    Excelentes histórias que são também vida pura, em bruto, que precisamos tanto…

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