Uma noite no sótão: com a vizinha de Ingmar Bergman

Bergman

Olha que artigo tão velho. Publiquei-o há quase 26 anos, no Verão de 1988, no Semanário. Mesmo com duas ou três valentes polidelas, vê-se que envelheceu mal. Escrevi-o na altura em que sairam, em inglês e francês, as memórias de Ingmar Bergman. O livro foi, entretanto, publicado em português. Chama-se, claro, “Lanterna Mágica” e é uma edição da Relógio d’ Água.

Lanterna Mágica

Uma edição linda

Bergman, a câmara que já não filma

O travelling é uma técnica a evitar. Foi o que disse Bergman. Melhor, escreveu-o. Se Ford andasse a dizer coisas destas, podia ter sido Ford a dizê-lo. Escreveu-o Bergman, autor de alguns dos mais insustentáveis grandes planos da história do cinema, daqueles que, pelo muito que juntam de sexo e morte, ainda quando tenhamos já fechado os olhos, continuam a arder irritantemente no nervo óptico.

Não me levem a mal os qualificativos. Insustentável e irritante, qualificativos que acabei agora de usar, não têm nada a ver com a ideia muito em voga de que fulano ou sicrano é um chato – e Bergman teria de o ser por maioria de razão – e que ver-lhe os filmes é uma maçada e para maçadas bastam as da vida, na opinião dessas pessoas, a quem a vida não dá em geral mais maçadas que um calo ou uma visita de cerimónia, como um dia disse Jorge de Sena a uma selecta plateia lisboeta de cinéfilos nos anos 50.

Não se maça, por exemplo, quem leia as suas memórias — as de Bergman. Foram publicadas em 1987, há menos de um ano, portanto, e há traduções francesa e inglesa acessíveis. Quando traduzirem o livrinho para português chamar-se-á “Lanterna Mágica”, o que estará certíssimo, porque no livro é o cinema que tudo articula, mesmo quando não é o cinema que está em primeiro e grande plano. Nem é bem o cinema. É mais esse cinematógrafo que Bergman, num Natal da sua infância, comprou ao irmão mais velho, por cem soldadinhos de chumbo, toda a sua colecção. “Há um projector em mim que faz passar interminavelmente imagens, ruídos, clarões”, afirmou ele.

Nesse livro sem travellings e em que a montagem é soberana, Bergman, ele mesmo, transforma-se num projector que dispara imagens díspares e desencontradas — a infância cruza-se com a velhice, o amor com a doença, a vida privada com o teatro — imagens que produzem no leitor o que Bergman entende que é a diferença do cinema como arte: “Nenhuma arte atravessa directamente, como o cinema, a nossa consciência diurna, para tocar nos nossos sentimentos, no fundo da câmara crepuscular da nossa alma.”

Lanterna Mágica” é um livro inundado de episódios que provam que todo o cinema de Bergman é autobiográfico. A infância do cineasta foi vivida entre fantasmas e de­mónios, alimentados por uma educação se­vera e pelo pai, um pastor luterano. Há muito que isto é do domínio público, mas agora as confissões são mais pungentes e reveladoras, com um cortejo de punições e muito ódio como pano de fundo das relações familiares, o que inclui a rocambolesca tentativa de matar no berço a irmã mais nova, por sugestão do irmão mais velho, cujas indicações Berg­man seguiu mal: “Em vez de apertar a gar­ganta da minha irmã, tentei comprimir a sua caixa torácica.”

Outra das escuras sombras das noites de Bergman é a sexualidade. O gosto dele em contar-nos como a descobriu faz-nos desejar ter tido como vizinha, aos nove anos, uma generosa viúva igual à que o iniciou. Uma sexualidade que depressa evolui para a morte como o atesta o episódio da morgue onde fi­cou fechado com o cadáver de uma jovem mulher e que — Bergman dixit — pensou retomar em “A Hora do Lobo” (cortou a cena na montagem), evocou no prólogo de “Persona” e fez ganhar forma definitiva em “Lá­grimas e Suspiros”.

O mesmo percurso, da sexualidade à morte, cumpre-se, de resto, na sua prática cinematográfica. Cito: “O trabalho cinema­tográfico é uma actividade fortemente eró­tica… está irremediavelmente carregada de sexualidade. Foram precisos muitos anos para eu aprender que um dia a câmara já não filma e o projector se extingue.” Desse envelhecimento já Bergman falava, pela in­terposta pessoa de Victor Sjöstrom, num dos mais líricos dos seus filmes, “Morangos Silvestres”. E quando já não lhe era possível deixar de ver, em si, que tudo se extinguia, filmou “Da Vida das Marionetas”, de que ele mesmo disse ser «a morte da própria morte». Descobrir estas coisas fúnebres não é nenhum di­vertimento, mas quem, agora, se atrever a ver os filmes de Bergman, descobrirá que em tudo isto, que é muito escuro, pode haver uma larga ternura, mesmo que nela não caiba nenhuma consoladora esperança.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

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5 respostas a Uma noite no sótão: com a vizinha de Ingmar Bergman

  1. Maria do Céu Brojo diz:

    Muito bem acompanhado no sótão. Se os filmes de Bergman vou revendo, ignorava o livro “Lanterna Mágica”. Agora e de novo, a curiosidade está desperta.

  2. Qual envelheceu mal!, com o lifting está uma boazona….

  3. nanovp diz:

    Sou daqueles que ainda vejo uma réstia de esperança no mestre sueco, claro que há noites frias, gélidas, como “lágrimas e suspiros” , mas também a doçura do “Um verão de amor” , “Monica e o Desejo”, e ainda a memoria viva em “Fanny and Alexander”…

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