Vigílias

Ticiano, "El entierro di Cristo", circa 1523-1526, Óleo sobre tela, 148x205. Musée du Louvre, Paris

Ticiano, “El entierro di Cristo”, circa 1523-1526, Óleo sobre tela, 148×205. Musée du Louvre, Paris

Para voltar da morte é necessário oferecer a marca da ferida às mãos dos outros. O hábito das trevas não se despe à primeira luz nem se sobe da sombra a olhar para trás. Por isso, ressurgir é fermentar.

Sobre Ivone Mendes da Silva

Entre lobos e anjos me habituei a escrever. É talvez por isso que, para além de asas e de uivos, as palavras me tropecem e não encontrem sozinhas o caminho das folhas. Nessas alturas, peço para elas a bênção da tristeza, musa de sopro persistente, que triste me faz e a acolhedoras mesas me senta.
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7 respostas a Vigílias

  1. Maria do Céu Brojo diz:

    Frases curtas e belas que a tela de Ticiano remata. Gostei muito, Ivone.

  2. ERA UMA VEZ diz:

    Na Quinta Feira o meu tio padre e poeta(mais poeta, eu sei)
    lavava ajoelhado os pés de uma gente que eu desconhecia

    Na sexta às três da tarde paravam os trabalhos do campo
    os homens tiravam os chapéus em sinal de respeito e as mulheres vestidas de negro rezavam
    para lembrar a morte do Cristo

    Diziam as avós e as mães que tudo isto eram endoenças
    mais tarde percebi que eram todos os rituais destes dias
    O meu avô e os outros homens do campo vestiam fato preto e iam confessar-se
    (uma vez por ano) era a desobriga
    que contariam eles ao senhor prior? e o que ficaria em segredo que o padre também tinha mais que fazer…

    A procissão do Senhor morto era em silêncio
    só os passos e o bichanar das ordens de quem orientava
    depois de quando em vez uns ruídos estranhos coisa bíblica
    e eu atenta procurava estar triste a condizer

    No Domingo acordava cedo. Poupada às Aleluias da véspera
    lá vinha o saco das amêndoas prometido
    e depois escondido não fosse alguém mastigá-las na missa

    Naquele ano a minha mãe fez duas camisas de organdim
    manguinha de balão
    e saias de corpo num escocês de tecido leve
    A minha irmã e eu de igual
    sapatos de verniz e penteadas e aperaltadas de ver a Deus

    E os olhos da minha mãe brilhavam…

    Ai o organdim, maldito organdim
    picava a meio dos braços no pescoço e um vermelhão de coçar
    a minha mãe a reprovar desanimada
    a minha irmã a repetir desesperada
    mas a procissão era bonita colorida
    os raminhos de saudar o Senhor ressuscitado
    tinham jarros malmequeres e malvas cor de rosa

    e em casa o borrego com ervilhas esperava

    à tarde o sr prior passava benzia cada casa
    passava a mão pela cabeça da criançada em bicos de pés
    e lembrava o meu avô que a Igreja tem despesas

    a Páscoa chegava ao fim
    e agora perguntava?

    Daqui a 40 dias será Quinta feira da espiga e depois o Verão
    Sim o Verão gritava de contente
    O Verão enfim!
    o tempo em que já não há frieiras o sol anima a gente
    o mar nos chama
    e o corpo aquece num maillot de alças
    que não tem nada nada de organdim

  3. “O hábito das tre­vas não se despe à pri­meira luz”
    Um casulo, Ivone. Ou uma metamorfose , palavra caída em desuso.

  4. nanovp diz:

    Simples. Profundo. Como o espaço na tela.

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