A Falácia do Espantalho

Andrea Kowch – “No Tresspassing Scarecrow”

Andrea Kowch – “No Tresspassing Scarecrow”

E se mugíssemos em vez de usar palavras? Seria possível entendimento? Conseguindo os bovinos comunicar e acasalar por esse meio, os humanos melhores provas dariam. Estariam superiormente atentos à acuidade, à nuance do som, ao olhar e ao trejeito que mais falam do que a fala. Demasiadas vezes as palavras entopem diálogos. Ruídos, como se má sintonia e grão atafulhassem ecrã feito rosto com boca laboriosa na articulação convencionada.

Na expressão do pensamento, existem os prolixos, os desconfiados, os contidos, os hipócritas, os genuínos, os mentirosos. Os pusilânimes. Os sofistas que Platão definiria como “impostores, caçadores interessados em jovens ricos, comerciantes didáticos e atletas em combate verbal, purificadores de opiniões, malabaristas de argumentos, mais verosímeis do que verdadeiros, mais sedutores do que plausíveis.” Os falaciosos são subespécie cujo classificar mais parece identificação latina de vivos terrestres. Taxonomia outra.

A  falácia do espantalho intriga por argumentar alicerçada no engano das posições do interlocutor. Trama ideia ou atitude fácil de rebater para, de seguida, a atribuir ao adversário na contenda retórica. Sugestiva é a origem do termo: homens de palha como alvos nos treinos de combate. Fabricados para derrube. Mugissem aqueles que dos logros fazem discurso e estaríamos libertos de pecha tão comum!

Escreveu a Sophia:

“Com fúria e raiva acuso o demagogo/ E o seu capitalismo das palavras Pois é preciso saber que a palavra é sagrada/ Que de longe muito longe um povo a trouxe/ E nela pôs sua alma confiada/ De longe muito longe desde o início/ O homem soube de si pela palavra/ E nomeou a pedra a flor a água/ E tudo emergiu porque ele disse/ Com fúria e raiva acuso o demagogo/ Que se promove à sombra da palavra/ E da palavra faz poder e jogo/ E transforma as palavras em moeda/ Como se fez com o trigo e com a terra”

(Sophia de Mello Breyner Andresen)

Sobre Maria do Céu Brojo

No tempo das amoras rubras amadurecidas pelo estio, no granito sombreado pelos pinheiros, nuas de flores as giestas, sentada numa penedia, a miúda, em férias, lia. Alegre pelo silêncio e liberdade. No regresso ao abrigo vetusto, tristemente escrevia ou desenhava. Da alma, desbravava as janelas. Algumas faziam-se rogadas ao abrir dos pinchos; essas perseguia. Porque a intrigavam, desistir era verbo que não conjugava. Um toque, outro e muitos no crescer talvez oleassem dobradiças, os pinchos e, mais cedo do que tarde, delas fantasiava as escâncaras onde se debruçaria. Já mulher, das janelas ainda algumas restam com tranca obstinada. E, tristemente, escreve. E desenha e pinta. Nas teclas e nas telas, o óleo do tempo e dos pinceis debita cores improváveis sem que a mulher conjugue o verbo desistir. Respira o colorido das giestas, o aroma dos pinheiros nas letras desenhadas no branco, saboreia amoras colhidas nos silvedos, ilumina-a o brilho da mica encastoada no granito das penedias.
Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

5 respostas a A Falácia do Espantalho

  1. ERA UMA VEZ diz:

    Se eu tivesse ao menos um pouco de” Sofia”
    hoje diria:

    que um demagogo pode dar-se ares de manequim de montra
    ou de lorde inglês
    ou de vedeta de palco
    ou todos de uma vez
    que as suas notas nunca serão as nossas notas

    nem mesmo as moedas
    que não soube contar nem distribuir
    porque um espantalho é e será sempre apenas um espantalho
    cujo destino é afastar a passarada
    e sendo o seu rabo feito de palha
    bastará uma pequena chama

    e de repente um sururu
    e o espanto vira gargalhada
    “ali vai ele ali vai o rei …e o rei vai nu “

  2. Se mugissemos era complicado: devia ser lindo andar no Metro em hora de ponta.

Os comentários estão fechados.