Belatedness

Creio que se escreve contra a morte. Não sou só eu a dizê-lo, logo deve existir alguma verdade nisto, pois das minhas afirmações muitas vezes acabo por descrer. Mas olhemos que morte. A dos momentos, é nessa que penso. A escrita prende com a rede das sílabas as efemeridades passageiras e dá-lhes destino de imortais. Feitas texto, todas as coisas são eternas e a thing of Beauty is a joy, forever. John Keats viveu entre 1795 e 1821 uns 25 anos marcados pela tensão entre a ansiedade e o sentido da transcendência. Em 1817 escreveu numa carta a Benjamin Bailey: “What the imagination seizes as Beauty must be the truth.” E eu também não posso afirmar que a imaginação seja uma má companhia, sobretudo se ela é, como em Keats , um modo de sobreviver a si mesmo: “When I am in a room with People … the indentity of everyone … begins to press upon me [so] That I am in a very little time annihilated” (Letters, 1.387).
Muitos dos poemas de Keats são poesia sobre como escrever poesia e uma poesia muito consciente de estar a reciclar (raio de palavra) velhas histórias, belatedness sem dúvida:

So felt he, who first told how Psyche went
On the smooth wind to the realms of wonderment;
What Psyche felt, and Love, when their full lips
First touch’d, what amorous, and fonding nips
They gave each other’s cheeeks …
(“I stood tiptoe”, II. 141-4)

Leigh Hunt disse de Keats que “he never beheld an oak tree without seeing a Dryad” mas não sei se terá razão. Talvez as dríades, outras ninfas, Pã e os seus cortejos, sejam apenas uma forma de dizer, uma linguagem de consolação perante o quanto de indizível há no mundo.
Comecei eu por falar da morte e estou no indizível do mundo. Portanto, não saí da primeira linha o que, aliás, me parece bem. É pelas linhas de Keats que vos convido a ir, não pelas minhas.

Keats

Sobre Ivone Mendes da Silva

Entre lobos e anjos me habituei a escrever. É talvez por isso que, para além de asas e de uivos, as palavras me tropecem e não encontrem sozinhas o caminho das folhas. Nessas alturas, peço para elas a bênção da tristeza, musa de sopro persistente, que triste me faz e a acolhedoras mesas me senta.
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3 respostas a Belatedness

  1. Coisa de beleza e de verdade, também, este texto.

  2. nanovp diz:

    Contra a morte e pela vida, por cada pedaço de vida que resta…grande título: Belatedness pode significar tanto…

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