Casei-me com a Arte; as Mulheres Divertem-me

Manuela Pinheiro - Solidão em Bola de Sabão

Manuela Pinheiro – Solidão em Bola de Sabão

Frase manuscrita no reverso de uma ementa reza assim: “Casei-me com a arte; as mulheres divertem-me.” No ateliê da pintora Manuela Pinheiro, o escrito resta preso via pionés à mistura com fotografias de amigos, a maioria com nome inscrito na história recente portuguesa. O autor foi homem da cultura, falecido quando faltava um para os setenta anos – David Mourão Ferreira. Caracterizava-o o talento como poeta e a mestria na prosa. Em privado, acrescia espontaneidade, rendição aos encantos das mulheres com quem mantinha amores felizes. Depois, por ele descritos e ilustrados com o traço de Francisco Simões, à época Francisco d’Almada. Desenhos resumidos à essência de um gesto, dois talvez, remetem para a mulher fecunda pelo acentuado redondo da anca e mamilos. Inspirados na tensão erótica de amor que inaugurava.

David Mourão Ferreira no ateliê da pintora Manuela Pinheiro.

David Mourão Ferreira no ateliê da pintora Manuela Pinheiro.

A frase, rabiscada a esferográfica, aparenta provocação machista e leviana. Mas o desvendar último do sentido fica a roer por dentro. Com a arte, amor e compromisso para a vida; com as mulheres, fruição de laços que atam sentidos num nó cúmplice, eventualmente terno. Talvez precário. Divertido no sentido de risonho. Folguedo de quem a vida quer cheia e livre. Isenta de obrigações penosas além das inevitáveis no percurso dos humanos.

A arte é procura de eternidade. No palco, na pintura, na escrita, na dança, na música ou noutro qualquer suporte. E se a vida, quantas vezes!, estraçalha almas,  é pela a arte que lembramos possuir uma. A passagem terrena será frívola se não aspirar à harmonia, à estética nas escolhas e atitudes. Porque a arte é forma de verdade, perturba. Interpela. Reflete valores e contradições dos seres. Perceciona a humanidade. Alivia desarmonias. Quem dela afirma necessidade de ceder ao gosto popular, engana-se: transformá-la-ia em alienação. Mas é preciso que a arte saia do casulo e venha à rua. Que se torne tão procurada como um concerto rock. Que o casamento com a estética tenha como âncora lonjuras íntimas e sociais.

Sobre Maria do Céu Brojo

No tempo das amoras rubras amadurecidas pelo estio, no granito sombreado pelos pinheiros, nuas de flores as giestas, sentada numa penedia, a miúda, em férias, lia. Alegre pelo silêncio e liberdade. No regresso ao abrigo vetusto, tristemente escrevia ou desenhava. Da alma, desbravava as janelas. Algumas faziam-se rogadas ao abrir dos pinchos; essas perseguia. Porque a intrigavam, desistir era verbo que não conjugava. Um toque, outro e muitos no crescer talvez oleassem dobradiças, os pinchos e, mais cedo do que tarde, delas fantasiava as escâncaras onde se debruçaria. Já mulher, das janelas ainda algumas restam com tranca obstinada. E, tristemente, escreve. E desenha e pinta. Nas teclas e nas telas, o óleo do tempo e dos pinceis debita cores improváveis sem que a mulher conjugue o verbo desistir. Respira o colorido das giestas, o aroma dos pinheiros nas letras desenhadas no branco, saboreia amoras colhidas nos silvedos, ilumina-a o brilho da mica encastoada no granito das penedias.
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6 respostas a Casei-me com a Arte; as Mulheres Divertem-me

  1. O mais artístico a que um homem pode aspirar é ser ele a divertir uma mulher.

  2. Maria do Céu Brojo diz:

    Mas ele divertia e de que modo…

  3. ERA UMA VEZ diz:

    Pessoalmente só o vi uma vez. Já um pouco envelhecido. A caminho do Algarve deliciado com um cozido à portuguesa em tempos de Canal Caveira.
    Ele e uma senhora que supus ser a esposa.
    Falavam pouco. Comiam bem.
    Fiquei a olhá-lo discretamente. Os cafés, o lento ritual do cachimbo enquanto esperava a conta. Demasiado normal para o meu imaginário.

    Nos seus versos o AMOR era protagonista.
    Li e reli quando o meu corpo cresceu e arredondou, quando a minha alma se inquietou pela primeira vez, quando o coração tentou sair do peito aos trambolhões.

    Era também o tempo de devorar os amores campestres de Júlio Dinis, as perdições de Camilo, as narrativas de Herculano, intervalando com as novelas românticas de Corin Tellado…Tudo o que a Gulbenkian me trazia em carrinhas cinzentas de lata que paravam à minha porta. Um encantamento.

    Oito de Maio.
    Faz hoje anos que dissemos um ao outro o que já toda a gente percebera.
    Fiz muita força para que muitos anos depois o meu filho Manel nascesse a 8. Não consegui. Nasceu a 9. Amanhã portanto.

    É de amor que falo. De AMOR para a Vida.De uma e outra forma. Do melhor do mundo.

    E David Mourão Ferreira sabia das coisas. Se sabia…

  4. Maria do Céu Brojo diz:

    Excelente memória. Por detrás das graçolas como a que cito, um Homem. Partilho consigo as recordações das bibliotecas itinerantes da Gulbenkian quando estava em tempo de férias na Beira. Eram um encantamento que esperava com ansiedade e onde recolhia braçadas de livros com a complacência do condutor/vigilante. E, sim, fala, ele falava do amor que importa.

  5. Nota / deimportante Relévo /Café da Manhá!!!!! Parabéns! MariadoCéuBrojo!!!! Boa organizacáo //O video /Amália Rodrigues//com as melhores”fotos-de Amália ///muito Bom!! Parabéms /FilomenaFranco!!!! —gosto muito / boa Informaçáo ///Abraço de Amizade

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Agradeço-lhe, querida amiga, as suas palavras. São uma honra para o “Escrever é Triste” e para mim. Muito obrigada.

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