Dicionário da besteira

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Tenho uma inveja do catano do historiador Guy Betchel e do escritor Jean-Claude Carrière. Estes dois franceses devem ter passado bons anos a rir-se. É que andaram a recolher as frases, artigos e notícias que constituem o “Dicionário da Besteira”, (Dictionnaire de la Bêtise et des erreurs de jugement), agora actualizado pela editora Robert Laffont, e de que eu tenho a edição de 1992.

É um mimo de idiotice e filosofia. E faz-nos pensar na prodigiosa capacidade que a imprensa, a intelectualidade, os políticos, os artistas, os cientistas, enfim, nós todos temos para errar juízos de valor.

Aqui ficam alguma preciosidades.

Ouçam, em 1955, nos “Temps Modernes”, a luminosa Simone de Beauvoir a atirar-se à direita:  “A verdade é una, o erro é múltiplo. Não é por acaso que a direita professa o pluralismo.

E o parceiro, o inefável Jean-Paul Sartre, a cagar marginalmente no voto, numa entrevista de 1972: ” Eu não votarei. O sufrágio universal fez-se para separar os trabalhadores, para fracturar as solidariedades de classe […] É preciso não entrar no sistema. Essa é uma das razões que me atrai no maoismo: acredito na ilegalidade.

Cheio de presciência, um executivo, Ken Olson, presidente de uma companhia de equipamento digital de Boston, declarou no ano pré-histórico de 1977: “Não há nenhuma razão para que um individuo venha um dia a querer ter um computador pessoal em casa.

Ou, no começo de 1955, a infalível revista “Variety”, pronunciando-se, atenta, sobre esse recentíssimo e embrionário fenómeno chamado rock and roll: “Quando chegar o mês de Junho já terá desaparecido.

Mais seguro e bem informado, Neville Chamberlain, primeiro-ministro britânico, dizia em Agosto de 39, numa visita a Berlim: “Hitler é por natureza mais artista do que político. Uma vez resolvida a questão da Polónia, ele propõe-se passar os seus dias como pintor e não como um pai da guerra.

De uma forma mais séria, em Setembro de 1939, a “Paris-Match” alertava os franceses para a forma como se deviam comportar na guerra que a invasão alemã lhes metia em casa: “No campo, nunca fiquem de pé no meio da estrada, a ver os aviões chegar. Atirem-se logo para a valeta.

Igualmente pedagógico e intemporal, o pastor luterano Sylvannus Stall, avisava-nos, nesse bom ano de 1933, sobre os apertados limites das práticas onanistas: “Conhecemos rapazes que pensavam poder desenvolver o seu membro sexual pela masturbação. Cometem não só um rijo pecado, como laboram num erro vigoroso.” Ora isto não é verdade, mas não serei eu a dizer-vos qual é a parte que não é verdade.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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5 respostas a Dicionário da besteira

  1. e a capa do livro é bem gira

  2. nanovp diz:

    Obriga-nos a olhar o espelho…e a palavra é mesmo essa : que quantidade de Besteiras…

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