Escrever é chabugo

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Não sei se escrever é triste,
talvez possa testemunhá-lo.
Estamos sós, ou com uma música
(eu estou com James Levine e a Wiener Philarmoniker
que intepretam Biedrich Smetana,
mas claro eu sou pretensioso).
De resto, sim, sós, isolados, taciturnos
porque as palavras, todas as palavras
não correspondem a todos os nossos sentimentos.

Haverá algo melhor do que triste
para descrever este estado!
Posso inventar eu a palavra.
por exemplo, chabugo!

Estou chabugo enquanto escrevo,
escrever é, no fundo, chabugo
menos do que a tristeza profunda,
mais breve que a melancolia passageira
E passa com um copo
A chabuguice abate-se em nós pelo fim da tarde
e não nos deixa ir para casa.
A chabuguice é o desconforto que sentimos
Ao saber que perdemos a vida, que fomos lorpas;
que em vez de escrever podíamos ter ganho dinheiro

Eu sei que o dinheiro não traz felicidade;
eu sei que há gente triste com dinheiro.

Mas creiam: ninguém endinheirado alguma vez
se sentiu chabugo. Nisso podem crer.
Porque esse sentimento nem eles o conheciam.

Escrever é, de facto, chabugo!

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom.
Sem nunca me levar a sério – no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom
(e barato).

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Uma resposta a Escrever é chabugo

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Henrique, fiquei com vontade de rasgar o cartão de cidadão. (Mas isto são luxos de quem tem o cartão do SLB)

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