La Frick, c’est chic

My favourite address in NY

My favourite address in NY

Em missão patriótica, por entre banqueiros e mais malta às riscas, passei a semana em NY. Não foi, a bem dizer, sacrifício de maior. Não tanto porque me deslumbre a Terra Santa da finança onde me vi a peregrinar (não há muro das lamentações mas há rua com nome de parede onde já vi muito boa gente a levar cabeçadas). Mas porque arranjei disposição e uma satisfatória desculpa para fazer duas coisas de que verdadeiramente gosto. A primeira é beber uma bebida de puta que dá pelo nome de Cosmopolitan que me transporta (mais o Vasco) aos bons tempos de Boston. A segunda é arranjar um par de horas para vaguear na Frick Collection, mais um dos meus museus favoritos do mundo.

Para quem não saiba, a Frick é lugar verdadeira e estupidamente mágico. Uma mansão que só um barão do aço saberia construir de tão kitsch. Por fora um chateau do Loire, classicamente deslocado, ali no nº 1 da East 70th Street. Por dentro um petit Trianon de finais de XIX surrealisticamente improvável. Mas nem é tanto o oásis de paz, no meio do bulício de NY, que mais me comove. É a puta da coleção, senhores! Cimabue, della Francesca, Bellini (por acaso também emborquei um bem bom lá mais a baixo no Cipriani), Tiziano, Bronzino, Veronese e todos os meus velhos amigos flamengos e holandeses. Estive por lá à charla com o jovem Hans Holbein (ocupado a fazer um Thomas More com cara de mau), com o Van Dyck, o Frans Hals, com aquele rapaz van Rijn que, à falta de canalizador, arranjou um cavaleiro polaco, e até com dois ou três Vermeer ao mesmo tempo. Para não falar dos espanhóis que também por lá se penduraram. Goya, Velazquez e o outro que afinal era Grego e portanto tão periférico como os primeiros. E mais não conto porque se vos disser que ainda fumei uma cigarrilha que encheu de nevoeiro os olhos do bom do Turner, arrisco-me a que me tomem por exagerado.

Para ser perfeita, àquela manhã luminosa de NY só faltou a mão que sempre acompanha a minha. A mão com que sempre passeio, verdadeiramente em paz e a alguns palmos do chão, por todos os museus da sentimental coleção que é só nossa.

Sobre Pedro Norton

Já vos confessei em tempos que tive a mais feliz de todas as infâncias. E se me disserem que isso não tem nada a ver com tristeza eu digo-vos que estão muito, mas muito, enganados. Sou forrado a nostalgia. Com umas camadas de mau feitio e uma queda para a neurose, concedo. Gosto de mortos, de saudades, de músicas que nunca foram gravadas, de livros desaparecidos e de filmes que poderiam ter sido. E de um bom silêncio de pai para filho. Não me chamem é simpático. Afino.

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7 respostas a La Frick, c’est chic

  1. Oh. Já lá estive no nº 1 da 70th e em outros, embora eu não seja de Cosmopolitans, como sabes, nem acompanhe com banqueiros. Uma beleza de colecção.

  2. Diogo Leote diz:

    Acabei de assistir a uma revolução na crítica de arte. A partir deste teu texto, qualquer um que não inclua a palavra “puta” pelo menos duas vezes vai soar anacrónico.

  3. Passeio de invejar. Parece uma coisa irmã da velha villa onde o Getty tinha o museu, na Pacific Coast Highway.

  4. vgrilo diz:

    Cheers Old Boy! Ao velho Frick e aos Bostonian Cosmopolitans, esses mata-sedes de boa memória.

  5. A quantidade de coisas que tenho para fazer no meu rico futuro. Seja a vida boa longa…

  6. riVta diz:

    e eu… a ver um futuro Frick!

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