Letters to Monica

Letters to Monica A par da secura agressiva e derivas auto-punitivas, há um Philip Larkin doce, gentil, amante. É o que parece descobrir-se lendo as “Letters to Monica”, que a Faber & Faber publicou em Dezembro de 2010. A obra contém 375 cartas inéditas, das 1.400 que o poeta escreveu a Monica Jones, sua amante de 40 anos, com quem apenas viveu os dois últimos anos da sua vida.

São as cartas da “foca”, que ele incarna, à “coelhinha” que ela foi na vida dele. Ele uma foca infiel – confessou-lhe a ligação com Maeve Brennan sua colega bibliotecária – ela uma devastada coelhinha, de fidelidade inquebrantável, vivendo noutra cidade e só esporadicamente o encontrando. Larkin manteve este duplo relacionamento durante longos anos – conheceram-se tinham ambos 24.

Larkin justifica, numa dessas cartas, as razões para não abandonar Maeve: “You may wonder why I don’t end it, in my own interest as well as yours. Partly cowardice – I dread the scene. Partly kindness – if I’ve encouraged her to depend on me it seems cruel to turn her away.” Nunca saberemos, a não ser por pura especulação, as razões que levaram Monica, uma mulher bela e a quem não faltavam pretendentes, a amarrar-se a este pedregulho que a afundava.

Janela aberta sobre a vida amorosa — “I think sometimes I am ultimately an auto-erotic writer case incapable of love for anyone but himself. How my hand trembles! I’ve been cleaning the car.”  – as cartas (e são duas mil cartas, postais e telegramas) revelam também a “oficina poética de Larkin, a plena compreensão e segurança que ele tinha do seu processo de criação poética.

Voltando ainda aos tortuosos amores de Larkin, deve dizer-se que, depois de Maeve, Mónica teve outra rival, a secretária do poeta que, por facilidade mais do que por amor, entreteve com ele regular comércio de fluidos. Entrevistada pelo Daily Telegraph, Betty Mackereth saiu-se com uma prosaica afirmação:  “He was just a typical man. This is the sort of thing they do! Nowadays it’s footballers and cricketers. Then, it was poets.” Pode não parecer, mas não é das piores coisas que se pode dizer de um poeta que disse de pai e mãe o que abaixo se pode ouvir.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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10 respostas a Letters to Monica

  1. As biografias destas criaturas deviam ser proibidas e só ficava a obra. Assim, não sei se pregue uns estalos a Mónica se arranque os olhos a Larkin. Que nervos!

  2. A verdadeira Michelle:

  3. riVta diz:

    «a amarrar-se a este pedre­gu­lho que a afundava.»
    pró sofá Já!

  4. nanovp diz:

    Vida e obra: tão juntas e tão separadas…

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