Na Fita da Vida

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Na memória, o fabuloso Querelle. Jean Genet da ficção existencialista e homoerótica foi leitmotif. O porto de Brest, recriado artificial e provocadoramente ereto nas torres em forma de pénis, testemunha relações de paixão/ódio entre o marinheiro, Querelle, e os homens e mulheres da cidade. Desejo na procura, prazer na margem/crime. Volúpia transtornada.

Quem mergulha em Fassbinder espera e tem lateralidade das vidas. Sufocantes. Aprisionadoras. Feias. Vívidas. Por tudo, arrebatadoras. Encontra desgostos com recheio de amor insubmisso – no Querelle pintados com tons de fogo obsessivos. Ácidos como a autodestruição que retratam. Muitos dias assim na fita da vida. Num qualquer deles, recente, luzido pela maravilha no sorriso da idosa linda empurrada na cadeira de rodas. Em tarde soalheira, o beijo intenso dum casal. Li brilho onde Genet e Fassbinder e a cantora do sórdido cabaré, Moreau, escreveriam tragédia ou desespero.

Nota: texto publicado a 8 de Junho de 2010 em http://sempenisneminveja.blogs.sapo.pt/925612.html

Sobre Maria do Céu Brojo

No tempo das amoras rubras amadurecidas pelo estio, no granito sombreado pelos pinheiros, nuas de flores as giestas, sentada numa penedia, a miúda, em férias, lia. Alegre pelo silêncio e liberdade.
No regresso ao abrigo vetusto, tristemente escrevia ou desenhava. Da alma, desbravava as janelas. Algumas faziam-se rogadas ao abrir dos pinchos; essas perseguia. Porque a intrigavam, desistir era verbo que não conjugava. Um toque, outro e muitos no crescer talvez oleassem dobradiças, os pinchos e, mais cedo do que tarde, delas fantasiava as escâncaras onde se debruçaria.
Já mulher, das janelas ainda algumas restam com tranca obstinada. E, tristemente, escreve. E desenha e pinta. Nas teclas e nas telas, o óleo do tempo e dos pinceis debita cores improváveis sem que a mulher conjugue o verbo desistir. Respira o colorido das giestas, o aroma dos pinheiros nas letras desenhadas no branco, saboreia amoras colhidas nos silvedos, ilumina-a o brilho da mica encastoada no granito das penedias.

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4 respostas a Na Fita da Vida

  1. Exibi-o, com grande audiência popular, no horário nobre da SIC para aí em 98. E sem escândalo, ao contrário do caldinho que arranjei quando exibi, em 1991, no Canal 2, o Império dos Sentidos.

  2. Maria do Céu Brojo diz:

    Lembro-me. Foi preciso arrojo. Mas, convenhamos, o “Império dos Sentidos” exibido no início dos noventa precisou mais que arrojo – ter o necessário ‘en su sitio’.

  3. nanovp diz:

    Foi escândalo, pelo menos surpresa na primeira vez…Conheço muito mal Fassbinder!

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Também não conheço de Fassbinder toda a obra. Porque este filme foi pedrada no pântano dos costumes da época, não o esqueci.

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