Passear a Vida

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Estranhamente passeio o pensamento pelo céu azul, agora que o vento leva as nuvens, e tanto da minha memória. As pontas altas das árvores arqueiam-se, educadamente, e o mundo envelhece.

Há um cheiro Salgado junto ao mar que rebenta suavemente na praia dourada, inacessível, como as rochas brancas agrestes.

Perdes-te na estrada comprida, nos grãos de poeira que escorregam dos olhos como se contassem histórias de rotas antigas. Sinto-te longe, na baía enorme decalcada num oceano esverdeado, e tenho saudades dos eucaliptos.

Quando o sol se punha as mãos tremiam de antecipação, a camisola de lã era o calor do amor que se confundia com o manto de pedras finas e o livro do Steinbeck que lias alto no fresco da noite sobre a escuridão lisa. De olhos fechados, o calor do sol queimava as tristezas de quando vi que partias, por entre o vento áspero, o olhar de alguns desconhecidos e os latidos dos cães sem dono, sem que olhasses, uma só vez, para trás.

Enquanto olho as casas alinhadas na encosta, sinto a vida arrumada em prateleiras, como degraus de pedra esculpidos pelo teu corpo. Uma vida que não fica, como nada fica, num mundo que roda sobre si próprio, ao encontro da luz escondida pelo medo.

Aperto-me neste terror frio do amor que me foge, e apetece-me cantar num palco de terra, descalço e despido, sobre uma única vela que cria sombras longilíneas nas paredes disformes e rugosas das caves do mundo. Passeio a pensamento, em círculos labirínticos, numa última tentativa de calar os demónios. Empurro a alma através de desfiladeiros íngremes, gargantas profundas da escuridão humana.

Para depois aceder a uma luz nova e ímpar, pura como o sonho.

 

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência. Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra. Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data. A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach. De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro. A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.
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5 respostas a Passear a Vida

  1. riVta diz:

    gosto do teu acreditar
    🙂

  2. Bernardo, há um filme em que o amor acende luzes, o One From the Heart do Coppola.

  3. O amor tem isto de nos ser a escuridão e a luz.

  4. Maria do Céu Brojo diz:

    O modo com sente embeveceu-me.

  5. Sandra Barata Belo diz:

    “a vida arrumada em prateleiras”. ainda há espaço na estante.

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