Plano A

PLANO A

– sobre o salmo 90 de Moisés –

Na vigília de uma só das minhas noites
mil anos passam e por isso sei,
Deus de Moisés, que o homem amado
não é barro nem será pó,
é matéria da Tua matéria:
para mim foi ontem,
para ele, carne do Teu espírito, mil anos
numa mínima volta do relógio.
E também eu Te pedi, Deus de Moisés,
que me ensinasses a contar o tempo
na Tua língua, que é de sempre e para sempre,
para abrir as portas à sabedoria e dar o mesmo
descanso ao coração: a erva crescida de manhã,
de tarde seca, depois se corta.

Este dia e as horas deste dia são
um número a menos dos que me cabem contar:
fiz um poema, estudei versos numa língua,
e já ninguém a lê, para escrever, para quê?, um livro inteiro
em folhas de pó. Ninguém.

Não aprendi nada. Não tenho um plano b.
Toma, entrego o meu segredo à Tua Luz:
é o plano A.

O sol declina
e o esplendor não veio a derramar doçura.
Este dia e as horas deste dia são
um número a menos dos que me cabem contar.

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.
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8 respostas a Plano A

  1. E, no entanto, um poema, um só poema, pode ser, como o Senhor de Moisés, “um refúgio de geração em geração”.

  2. Emeel diz:

    O dia amanheceu cinzento. As palavras, estas palavras, porque traduzem um sentir tantas vezes sentido, e um estar doce, às vezes de amargura feito – deram-me o raio de sol de que precisava. Obrigada!

  3. GRocha diz:

    Ainda bem que não tem plano b, caso contrário não teríamos direito a ler este plano a.

    Há um “estudo” feito na américa que fala havendo a existência do plano b, normalmente os indivíduos nunca chegam a aplicar o plano inicial 🙂 😉

  4. nanovp diz:

    Para quê, o Plano Bê?

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