Uma modesta proposta de leitura

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A entrevista que José Manuel Félix Ribeiro, autor de “Portugal, a Economia de uma Nação Rebelde”, deu ao Jornal de Negócios, é excepcional. Félix diz coisas que vão abalar o pífaro a muitas almas sensíveis. Por exemplo: “Não há pobres por haver ricos.” Ou: “No final do Antigo Regime alguns dos ricos estavam a fazer uma mudança enorme de agulha… Estavam pela primeira vez a viver sem o Estado.” E sobre a troika: “A troika teve um papel fundamental. Vamos comparar. Tínhamos um automóvel. A certa altura o automóvel deixou de ter certificação para circular na estrada… O que a troika veio fazer foi dar-nos outra vez condições para circularmos na estrada.” E pormenoriza: “Não estávamos só proibidos de nos endividar, tínhamos uma chancela tal que os investidores internacionais, se quisessem vir para cá, tinham dúvidas em vir para cá. Portanto, nós podemos voltar a circular. É esse o significado de voltar aos mercados. O problema está em que o automóvel não foi transformado.

É de leitura obrigatória. Um magnífico trabalho de Anabela Mota Ribeiro que infelizmente não está em aberto online. Vale a pena comprar o “Negócios” para, por uma vez, deixamos de ouvir a treta do costume, seja a cartilha governativa, seja a jeremiada dos que acham que foram uns “maus” que nos arranjaram um problema. E só para terminar: “Não se pode fazer uma reforma do Estado sem haver um compromisso para décadas. O problema não é o Estado, o problema é que o modelo mudou. Estávamos habituados a que houvesse capitalismo e socialismo. Não conseguimos habituar-nos à ideia de que há vários capitalismos. O capitalismo da Europa continental – o do Euro – é muito diferente do capitalismo anglo-saxónico onde se democratizou o empreendedorismo. Criou-se uma mitologia na Europa que faz do capitalismo americano uma coisa bárbara.” Para que não haja dúvidas, Félix diz adiante que gosta muito dos americanos e que é preciso mudar a Constituição, passo chave, não para a reforma do Estado, mas a para a reforma do modelo capitalista que temos (a que, num dado passo, Félix Ribeiro chama “economia mercantil a crédito“) para um modelo capitalista que nos nos dê as condições para crescer.

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Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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12 respostas a Uma modesta proposta de leitura

  1. Sou bem mandada. Curiosa. Comprei o livro, compro o JN.

  2. António Barreto* diz:

    Cada vez mais necessitamos de gente que pensa fora dos círculos do poder, como parece ser o caso. Obrigado pela sugestão.

  3. Joaquim Patrício diz:

    Diria eu, que sou uma alma sensível, ou talvez não, que, segundo Félix Ribeiro, para sermos viáveis teríamos de nascer de novo. Ainda que não seja o conteúdo do livro, mas parece ser o sentido veiculado pela entrevista Sim, porque o automóvel somos nós. Nós é que não fomos transformados. Isso é do caraças! Será que “this time is different”?, Será que dizer: “Não se pode fazer uma reforma do Estado sem haver um compromisso para décadas.” não será a velha história de clamar por D. Sebastião, que a coberto de uma manhã de nevoeiro chega para nos salvar?
    Não creio que nos transformemos num homem novo (abraçando como de costume todas as mulheres); é mesmo como somos que vamos resolver os nossos problemas. Só é preciso que dispensemos grandes lições e, todos os dias, mantendo a nossa identidade, experimentemos algo diferente, sem pressa que os anos, já são quase 900, pesam.
    .
    “ O problema não é o Estado, o problema é que o modelo mudou” Sendo que o Estado somos nós, se o modelo mudou, que se lixe o modelo, há-de mudar outra vez.

    • Não creio que possamos ficar sentados à espera, caro Joaquim Patrício. (A ideia de abraçarmos todas as mulheres, pareceu-me inspiradora.)

      • Joaquim Patrício diz:

        Eu pecador me confesso. Fora maior o meu cuidado e menor seria o escândalo.
        Contudo,… não tão pecador que metido no buraco, encostado à enxada deixe de escavar e clame: “ao francês, ao alemão e holandês, seus ca… (pode haver senhoras que leiam isto) venham tirar-me do buraco.
        Nunca pretendi que ficar parado seja solução seja para o que for. Mas, como também não acredito em milagres, nem em nascer de novo, vai ser mesmo com todos as qualidades e defeitos que são nossos, que vamos sair do buraco. Porque, lá que vamos sair deste aperto, vamos. Sem compromissos para décadas, ou de outra maneira qualquer nos “transformarmos”. Pretender que isso é indispensável e, eventualmente, desejável, seria esperar por milages.

  4. JPR diz:

    Infelizmente vivemos uma época onde as citações servem para afastar a desejável inteligência colectiva….
    E este tipo de argumentação o propósito de colocar Cristóvão Colombo na rota da descoberta do capitalismo.
    Santa paciência!!!

  5. nanovp diz:

    Já está na lista…já não leio nada que se relacione com politica, principalmente a partidária…mas isto é sem dúvida diferente…

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