Ver, rever, ter

Aqui deixo um pot-pourri de filmes para visitarem no cinema ou conferirem em pay-per-view. Ao meu gosto, que gostos discutem-se:

"Por Aqueles em Perigo", de Paul Wright, Escócia

“Por Aqueles em Perigo”, de Paul Wright, Escócia

Com duas das mais belas – e terríveis – imagens do cinema a exibir nas salas portuguesas em 2014 (surgem ambas no clímax do filme), “Por Aqueles em Perigo” é a prometedora estreia de Paul Wright nas longas-metragens após três curtas premiadas. Aaron (um impressionante George MacKay) é o único sobrevivente de um acidente de pesca que vitimou cinco homens, incluindo Michael, o seu irmão mais velho. Exceptuando a mãe Cathy e a namorada de Michael, a vila piscatória não perdoa a Aaron este ter sobrevivido. Consumido pela culpa, o rapaz entrará numa espiral de autoflagelação, culminando numa primeira tentativa de resgatar o corpo – e a vida – do irmão em alto mar. Com alguns dos defeitos próprios da inexperiência – uma certa paixão formalista pela prosopopeia e pela mistura de registos, ou a redundância de tom, por vezes excessivamente lúgubre-, Wright mostra que o cinema escocês não acaba em Lynne Ramsay ou Peter Mullan. PMS

"O Acto de Matar", de Joshua Oppenheimer, EUA/Indonésia

“O Acto de Matar”, de Joshua Oppenheimer, EUA/Indonésia

“O Acto de Matar” não é apenas um dos melhores filmes do ano. É um dos melhores filmes do século XXI, autêntico marco histórico na genealogia do cinema documental e peça inovadora da sempre contraditória “verdade das imagens”.
Na sequência do golpe de estado de 1965 perpetrado na Indonésia pelo general Suharto, são formados esquadrões de morte para eliminar todos os que possam constituir ameaça ao novo regime. Serão assassinadas mais de 1 milhão de pessoas. Sem currículo de registo, o norte-americano Joshua Oppenheimer desloca-se à Indonésia em 2012, decidido a rodar um documentário apoiado no testemunho dos sobreviventes da chacina. Logo perceberá que o acesso às vítimas é muito limitado. Descobre, porém, que os intérpretes da purga assassina são, mais do que disponíveis e calorosos, verdadeiros heróis nacionais. No labor visionário próprio aos grandes documentaristas – dois dos melhores da actualidade, Errol Morris e Werner Herzog, são coprodutores do filme -, Oppenheimer persuadirá figuras sinistras como os cinéfilos Herman Koto ou Anwar Congo, torcionários de terceira categoria que liquidaram inúmeros inocentes, a reencenarem os seus actos de morte da forma que mais lhes agrade. Há, assim, morticínio reconvertido em excertos de film noir, “blaxploitation” e sequências musicais (também se vê travestismo) na melhor linha da Hollywood dos anos 40 a 70. À medida que os carrascos revisitam os seus crimes – onde se inclui o conselho de como derramar menos sangue quando se abate uma vítima -, o insano sentido lúdico cede por vezes ao sentimento de culpa, para logo se retomar a folia da autocentrada celebração. Os limites do comportamento abrem-se como corpos esquartejados, sobrando o insuportável ridículo do horror, em carne viva. Fundamental.

"Jovem e Bela", de François Ozon, França

“Jovem e Bela”, de François Ozon, França

Sempre ambicioso nos seus propósitos, um dos mais peculiares – e irregulares – cineastas europeus sucede a “Dentro de Casa” com um novo capítulo do tema central à sua obra: as fórmulas de poder subjacentes a qualquer relacionamento afectivo. Na linha de “Swimming Pool” (ainda a obra maior do percurso), “Jovem e Bela” centra-se nos mecanismos de chantagem, troca e sedução entre adultos e adolescentes. Com um manto algo tímido de escândalo, ao som de Françoise Hardy, trata-se do despertar sexual – e dos traços ambíguos – de Isabelle (Marine Vacht, verdadeiro convite à ilegalidade), uma miúda de 16 anos que, após insípida experiência de férias, descobre que, eureka, pode manipular o mundo masculino a seu bel-prazer. Isabelle – e Ozon através dela – levará a descoberta ao limite, prostituindo-se com homens cada vez mais velhos, onde se destaca Georges (o belga Johan Leysen, notável). Mas actriz, realizador e filme acabam por retrair o orgasmo em pleno clímax. Muito longe da profundidade humana de um “A Vida de Adèle”, vale, ainda assim, o mergulho na escuridão.

"Glória", de Sebastian Lellio, Chile

“Glória”, de Sebastián Lelio, Chile

Quantos filmes se podem hoje gabar de nos oferecerem uma personagem inesquecível? A protagonista é uma mulher de 58 anos, divorciada há 12, mãe de Pedro (Diego Fontecilla) e Ana (Fabiola Zamora), jovens adultos. Há um neto, e outro vem a caminho. Glória revela-se dona de uma confiança tranquila, e o seu prato frio é a solidão. Consome-o lentamente, noite após noite, nas discotecas, bares, clubes de Santiago do Chile, reencontrando velhos conhecidos, conquistando amizades breves, inconsequentes. De dia, gere a rotina do trabalho e trauteia os êxitos da inefável Paloma San Basilio. Por vezes, cerca da madrugada, tem de aturar um vizinho que grita vagas promessas de suicídio. Mas o retrato nunca é moroso, muito menos condescendente. Glória, interpretada por uma extraordinária chilena chamada Paulina Garcia – foi Melhor Actriz no Festival de Berlim de 2013 por este trabalho – não soçobra com nostalgias, sabe na perfeição o que família e sociedade esperam de uma mulher separada de meia-idade, e quer experimentar. Fuma uns charros, anseia por sexo com amor, não desdenha a cama pela cama – e o realizador assume um erotismo intenso, carnal -, parecendo encontrar o que procura em Rodolfo (Sergio Hernández), um antigo oficial da Marinha, divorciado há um ano. Mas Rodolfo está preso à imaturidade das duas filhas adultas, sustenta a ex-mulher, procura redefinir-se após uma operação. Num estilo directo, menos ardente e elaborado do que o do compatriota Pablo Larraín (“No”), que aqui serve de produtor, Sebastián Lelio, ao som do “Águas de Março” de Tom Jobim e Elis Regina, do supra-kitsch “Gloria” de Umberto Tozzi ou do adágio da 5ª Sinfonia de Mahler, concretiza um painel do triunfo feminino no mais difícil dos concursos humanos: o envelhecimento.

 

"A Imagem Que Falta", de Rithy Pahn, França/Camboja

“A Imagem Que Falta”, de Rithy Pahn, França/Camboja

O cambojano Rithy Pahn (1964) regressa aos indizíveis fantasmas da história recente do seu país nesta viagem impressionista mas lúcida à ditadura de Pol Pot, responsável pela morte de 25% dos seus compatriotas entre 1975 e 1979. Desde “Site 2” (1989) que Pahn se ocupa desses horrores, com destaque para o indispensável “S-21, la Machine de Mort Khmère Rouge”. Aqui, recorre à pessoalíssima memória familiar, entrecortando imagens de propaganda com figuras de barro que representam os prisioneiros dos campos de morte (incluindo ele próprio), compondo assim “a imagem que falta”.

 

"Fruitvale Station, de ???, EUA

“Fruitvale Station, de Ryan Coogler, EUA

O problema dos filmes inspirados em histórias verídicas (há também os que proclamam “baseado em factos reais”, como se houvesse outra categoria de factos) é a prisão dramatúrgica que a “realidade” pressupõe. O cinema não necessita de ser verdadeiro, precisa de ser verosímil. Nas mãos de um criador menos experimentado e convicto, a base factual oprime tanto a liberdade do olhar como a singularidade da assinatura. Grande êxito do penúltimo Festival de Sundance, premiado na secção “Un Certain Regard” em Cannes 2013, é a longa-metragem de estreia de Ryan Coogler graças à intervenção de Forest Whitaker e de Octavia Spencer (Óscar de Melhor Actriz Secundária por “The Help”), que aqui interpreta a mãe do protagonista, ambos como produtores. Sente-se o peso do debute: o filme acompanha a véspera do fim de ano de 2008 de Oscar Grant III (Michael B. Jordan – não, não é esse), um rapaz negro de 22 anos dos subúrbios de São Francisco, ex-condenado por delitos de droga e recém-despedido do supermercado onde trabalhava, que vai batalhando por manter a subsistência sem regressar à vida de dealer, num difícil quotidiano ao lado da hispânica Sophina (Melonie Diaz) e da filha de ambos, Tatiana, 4 anos. Faz-se a marcha inexorável rumo às primeiras horas de 2009 quando, regressados dos festejos de Ano Novo no comboio para Oakland, Oscar e os amigos são detidos pela polícia na estação BART de Fruitvale, e a tragédia ganha probabilidade. Exceptuando um flashback aos tempos de Oscar na prisão, Coogler não sabe esquivar-se à cronologia e ao realismo semidocumental, recorrendo mesmo a câmaras lentas de duvidosa eficácia psicológica. Nem as imagens de arquivo são excluídas do epílogo. Ainda assim, vale moderadamente a pena.

 

"Convicção", de ???

“Obediência”, de Craig Zobel, EUA

“Obediência”, drama claustrofóbico de simplicidade avassaladora, é desde já um dos triunfos de 2014. Peça de construção clássica, adapta o caso real de uma noite de sexta-feira de 2004 num restaurante de fast-food do Kentucky (a acção foi transferida para o Ohio) onde uma empregada de 19 anos é acusada do roubo de uma cliente. Sandra (Ann Dowd), a gerente do espaço, está stressada com os arrufos do director, acabou de perder 1400 dólares de bacon e pickles, finge consolar-se com um pedido de casamento que nunca chegará e mantém uma difícil relação geracional com a sua equipa. Ao receber a chamada de um presumível agente de polícia, reclamando ajuda na detenção da jovem Becky (Dreama Walker) por dinheiro extorquido a uma freguesa, Sandra irá obedecer às instruções: ordenar a Becky que se dispa por completo; revistá-la; detê-la numa arrecadação do restaurante; mantê-la nua; recorrer à vigilância de um colega masculino – os pedidos policiais escalam em intensidade e opressão. “Obediência” é um exercício psicológico de grande eficácia – uma espécie de ensaio de câmara de David Mamet despojado do sentido lúdico -, onde a rotina das batatas que fervem na fritadeira e o apressado esvaziamento do ketchup vai pontuando a iniquidade. Mas é também um “case study” do comportamento humano face ao cumprimento de ordens, uma análise, em microcosmos, – quase não saímos da arrecadação nas traseiras – da cega complacência com a autoridade e da maneira como, facilmente, abrimos espaços mentais para infligir sofrimento a terceiros, enquanto se questiona o voyeurismo do próprio espectador. “Obediência” custou a miserável quantia de 200 mil euros e não é menos do que um estudo superior sobre a génese dos raciocínios totalitários.

 

 

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.
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4 respostas a Ver, rever, ter

  1. riVta diz:

    os espanhóis têm uma boa palavra para lhe deixar aqui:
    – precioso ( ler com pronúncia)

  2. Enhorabuena, Rita. Muchisimas gracias.

  3. nanovp diz:

    Fabulous, também com sotaque…tenho muito para ver…

  4. Começa pelo “The Act of Killing”, caro Bernardo. Mas em jejum…

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