Visão, tenha duas – Psicopomportuguês

VisaoPapa
Olhar é Triste. Eugé­nia de Vas­con­cel­los e Manuel S. Fon­seca apos­ta­ram escre­ver um post sema­nal a par­tir da capa da Visão. Uma mulher e um homem olham para a mesma capa. Será que vêem coi­sas dife­ren­tes? Neste seu EeT, no pri­meiro minuto de cada sexta-feira,   “Visão, tenha duas”

VISÃO, TENHA DUAS
O PSICOPOMPORTUGUÊS QUE VAI GUIAR O PAPA NA TERRA SANTA

É adequado que um português guie o Papa na Terra Santa. A terra, esta substância fecunda e viva, separada das águas e debaixo do céu, é feminina, e por muito que um Papa reine sobre os três mundos e seja por natureza das suas funções um guia, alguém tem de o guiar a ele no caminho e mostrar a santidade da mulher – abro já esta janela simbólica.

A vocação portuguesa é esta, a do psicopompo – palavra de luxo para uma vaticana circunstância em viagem, a despeito da simplicidade que resume o seu chefe de estado, o representante de Pedro, no caso, a pedra franciscana em que agora assenta a igreja.

O psicopompo é uma criatura de forma humana ou animal cuja função é guiar a alma na viagem para o outro mundo. Ora, isto significa que, se somos guiados, ou estamos mortos, ou estamos perante o desconhecido, que é só uma forma de dizer que também nos desconhecemos. Deixámos a terra, estamos na água – por vontade do céu? – para chegar a uma nova terra. Há um trânsito, ou se preferir, uma transição, uma mudança de estado.

Na verdade, não fazemos outra coisa além de sermos guias e almas guiadas desde que nos entendemos por portugueses. Devíamos chamar-nos psicopomportugueses. Continuamos a fazê-lo, agora mesmo que somos laicos e que palavras como Papa ou Israel significam política e não religião, e em que a alma está prestes, não a subir, mas a cair do dicionário.

Tudo isto a que chamamos Portugal era mourama, Deus escrevia-se com outras letras. Henrique, da Casa de Borgonha, trouxe-nos o alfabeto que ainda hoje conhecemos quando pôs a espada a serviço de Afonso vi de Leão e Castela e este, por recompensa de boa matança, deu-lhe em casamento a filha ilegítima, Dona Teresa e, mais tarde, em 1096, o Condado Portucalense feito dos territórios de Portucale e de Coimbra. O resto é história, e até o mar se abriu para a contar, mas em vez do bastão de Moisés ficaram-nos os Lusíadas e o sonho da Ilha dos Amores por parusia. Depois disto, foi o que se sabe e tem o nome de descontentamento. Porquê? Um ponto expande-se de tal forma que não se contém e explode. É o Big Bang. Depois retrai-se. É uma lei. Uma lei Assim na Terra como Céu. Edificámo-nos sobre a expansão sem prever o recolhimento. Derivo? Talvez não.

Esse mundo de há séculos, de que fomos os guias e as almas guiadas, ficou em nós como nós nele. É esta a santidade da mulher, a nova vida que a terra dá: a diáspora portuguesa não está a caminho. Está. É da terra mesmo quando foi expulsa tal mouro ou judeu. Porque a vocação portuguesa é abrir o desconhecido, qulaquer que ele seja, e fazê-lo conhecido. De si. Dos outros. O psicopomportuguês Henrique Cymerman é um bom exemplo.

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.

Esta entrada foi publicada em Post livre com as tags . ligação permanente.

4 respostas a Visão, tenha duas – Psicopomportuguês

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    As coisas que vai descobrir, Eugénia. Psicopompo! Já ando à procura de um para lhe entregar a minha pobre alma.

  2. riVta diz:

    …sempre a aprender!

Os comentários estão fechados.