Wally is dead, Selfie lives

Paris-Montparnasse, Andreas Gursky, 1993

Paris-Montparnasse, Andreas Gursky, 1993

Selfies: definitivamente, uma coisa de parolos, de maria-vai-com-as-outras, de gente que não concebe a sua existência sem ser no meio de um imenso rebanho. Que tal recolherem esse bracinho? Não se cansam de estar de braço estendido desde o dia seguinte à cerimónia dos Oscares? Se querem continuar a fotografar em regime de self-service, não se inquietem porque têm muito por onde escolher. Escolham uma dessas fotografias icónicas e transformem-na, recriem-na. Sem pirataria, sem nenhum risco de violação de direitos de autor. Não há montagem ou adulteração de qualquer espécie. Apenas inspiração. Querem que explique? Vejam a fotografia ali de cima, Paris-Montparnasse, uma obra-prima de 1993 do alemão Andreas Gursky. Logo de seguida espreitem a imagem de baixo, Lisboa-Restelo, que a lisboeta Maria Costa captou e trabalhou a partir da fotografia de Montparnasse de Gursky. Em ambas, cada uma à sua escala, a mesma interrogação, a mesma procura. Ou, se quiserem, o mesmo jogo: uma espécie de “Onde Está o Wally?” para adultos, onde o Wally nunca se encontra. É essa a conclusão, inevitável, a que chegam Gursky e Maria Costa: o Wally está morto. E nenhum dos membros do rebanho parece importar-se com isso. Há tarefas bem mais importantes para cumprir do que andar à procura do Wally. Como tirar selfies.

Lisboa-Restelo, Maria Costa, 2014

Lisboa-Restelo, Maria Costa, 2014

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.

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8 respostas a Wally is dead, Selfie lives

  1. E o Wally não nos manda uma selfie?

  2. mónica diz:

    belas fotografias, q inveja 😉

  3. riVta diz:

    se transformares o ritmo das janelas ainda consegues ouvir qualquer coisa

  4. Diogo Leote diz:

    Só ouço vozes tão roucas de gritar pelo Wally.

  5. Que belo

    Que belas fotos e inspirações.
    E que belos quadradinhos de conversa 🙂
    …davam para uma banda desenhada.

  6. Ainda bem que gostaste, Teresa. E há mais banda desenhada para além do Wally.

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