Arquétipos

 

 

 

A 1636 painting by Rembrandt, now in the Gemaldegalerie in Berlin.

A 1636 painting by Rembrandt, now in the Gemaldegalerie in Berlin.

Não sou culpada do teu olhar e nem te atrevas a responder, que eu salto para outro quadro e degolo-te na bancada de cozinha. Estou cansada das escrituras, envelheci de milénios de expiação e de culpas alheias. Leva daqui esse contra-interrogatório mas deixa-me o espelho. Quero ver-me nele e quero que me vejas a ver-me mas não creias que me disponha a morrer por isso.

Olga calou-se, de súbito. Aquele texto cansava-a. Um longo monólogo em forma de prólogo explicativo, sozinha em cena a puxar de dentro de si uma Susana toda em sombras rodeada de pequenos tanques cheios de água que não a reflectiam e que apenas perpetravam uma suspeita repetida: ninguém sabe da linguagem dos outros se não a veste. O dramaturgo era um homem bem-intencionado. Aliás, o mundo está cheio de homens bem-intencionados que percorrem lendas e mitos, reescrevendo os arquétipos e a julgarem-se infinitamente generosos porque lhes dão recortes mais conformes aos ditames da modernidade. Aquele, e Olga sorria intimamente, tinha escrito uma série de peças com “as grandes heroínas”, como lhes chamava e às quais acrescentara ou mudara temperamento e destino. Uma Dalila insegura, uma Alceste cruel. A sua Susana, a que Olga tentava agora encarnar, era uma sedutora que, tendo recebido de volta o olhar que buscava, dele se desprendia sem culpas a reivindicar a não maternidade dos demónios que acordava. Mas ele não sabia, não tinha como saber, do fulgor antigo de quem transporta uma verdade que não precisa de sustento. A Susana dele continuava a depender de Daniel e da sua palavra legitimadora. E era aí, precisamente aí, que nada mudava. A sedutora nunca seria virtuosa enquanto dependesse da argumentação alheia, que insistiria na virtude a branquear a sedução, como se ambas não pudessem coexistir.

Voltou com pouco entusiasmo à sua fala. Quero ver-me nele e quero que me vejas a ver-me mas não creias que me disponha a morrer por isso. E lembrou-se do tanque forrado com uma tijoleira escura, um erro coberto de verdete onde escorregava quem por lá se atrevia. E viu-lhes os olhos. Num romance, dir-se-iam cúpidos. Mas os romances mentem muito. Talvez nervosos. Olhou-os a sorrir e começou: um-dó-li-tá. De um para outro: um-dó-li-tá. Depois parou e deixou de sorrir. Avançou. Para os dois.

Sobre Ivone Mendes da Silva

Entre lobos e anjos me habituei a escrever. É talvez por isso que, para além de asas e de uivos, as palavras me tropecem e não encontrem sozinhas o caminho das folhas. Nessas alturas, peço para elas a bênção da tristeza, musa de sopro persistente, que triste me faz e a acolhedoras mesas me senta.
Esta entrada foi publicada em Museu das Curtas. ligação permanente.

4 respostas a Arquétipos

  1. nanovp diz:

    Ora ai está Ivone…não é possível escolher entre dois, e logo dois bem intencionados….

  2. Pedro Bidarra diz:

    Bravo, bravo. Que bela volta. Que bela Susana

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