Correio Sentimental

Alphonse Mucha

Alphonse Mucha

«Sedução no feminino. Sem receita unívoca. Desabrochando à luz da ocasião.»

Vinícius que me desculpe, mas beleza não é fundamental.

Mulher sedutora é rodopio dos sentidos,

Seduzida por condição,

Espírito desenovelado,

Corpo solto,

Sensual desde o raiar da manhã.

Água que escorre pelas colinas alcantiladas,

Os vales e o sopé da vida

Afagando as curvas de mulher.

 

Mulher sedutora precisa de amar.

Mais que ser amada, porque nos afetos é rainha.

Neles se sacia,

Deles nasce fome por mais e diferentes.

Pontes e gosto por travessias.

Ir além da margem dos outros.

Do regaço verter ternura como rosas,

Perfumando com elas os passos.

 

Seduzir um homem decorre do desejo pela vida.

Do gostar.

Do peito cheio,

Intumescido pelo colostro que sente latejar.

E que homem não confunda o gosto de gostar com paixão.

A sedução nem sempre tem endereço,

É a vida o mais comum.

Palpitante.

Ofegante.

Ousada e real.

 

Para seduzir precisa do cheiro almiscarado da tentação.

Do apelo: dela e dele.

Mais que de beleza precisa mistério.

Queimar sem tocar.

Dos milímetros de tecido que a cobrem fazer muro de paixão

Que apeteça saltar.

Nota – Inspirado em Receita de Mulher” de Vinicius de Moraes

Publicado em http://sempenisneminveja.blogs.sapo.pt/424030.html

Sobre Maria do Céu Brojo

No tempo das amoras rubras amadurecidas pelo estio, no granito sombreado pelos pinheiros, nuas de flores as giestas, sentada numa penedia, a miúda, em férias, lia. Alegre pelo silêncio e liberdade. No regresso ao abrigo vetusto, tristemente escrevia ou desenhava. Da alma, desbravava as janelas. Algumas faziam-se rogadas ao abrir dos pinchos; essas perseguia. Porque a intrigavam, desistir era verbo que não conjugava. Um toque, outro e muitos no crescer talvez oleassem dobradiças, os pinchos e, mais cedo do que tarde, delas fantasiava as escâncaras onde se debruçaria. Já mulher, das janelas ainda algumas restam com tranca obstinada. E, tristemente, escreve. E desenha e pinta. Nas teclas e nas telas, o óleo do tempo e dos pinceis debita cores improváveis sem que a mulher conjugue o verbo desistir. Respira o colorido das giestas, o aroma dos pinheiros nas letras desenhadas no branco, saboreia amoras colhidas nos silvedos, ilumina-a o brilho da mica encastoada no granito das penedias.
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4 respostas a Correio Sentimental

  1. Uma animação sobre emprego e crescimento ou vice-versa:

  2. nanovp diz:

    gostei dos milímetros de tecido….

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