Edward de Bono & Alice

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Alice: Se alguém lhe perguntasse qual é a sua profissão, o que respondia?

E. de Bono: Sou um pensador.

Alice: Não será antes um professor do pensamento?

E. de Bono: Não, sou um pensador. Um pensador e um designer de novos métodos de pensamento.

Alice: A criatividade faz parte do nosso código genético?

E. de Bono: Não me parece. Há alguns aspectos da criatividade que podem estar, mas em termos de ideia de criatividade, não. Acho que podemos ter curiosidade, o que faz com que as pessoas tenham vontade de explorar coisas e podemos ter um background que ajude. Mas não acredito nisso, apesar de haver provas de que as pessoas criativas têm alguém psicótico na família.

Alice: Concorda com a frase de Voltaire: “A criatividade é como a barba, só a temos se a deixarmos crescer”?

E. de Bono: Não conhecia a frase, mas concordo com ela. A criatividade assenta na confiança e quando mais confiante, mais bem sucedido se é.

Alice: A criatividade é um jogo de crianças?

E. de Bono: As crianças gostam de explorar e porque não sabem o suficiente acerca do mundo, não estão limitadas, podem ser mais livres no que respeita às possibilidades, a realidade para elas não é um constrangimento. Nesse sentido, elas têm a ignorância para explorar sem as inibições do conhecimento.

Alice: Em português a palavra criatividade decompõe-se em “idade criativa”. Há uma idade para se ser criativo?

E. de Bono: Há uma idade no sentido em que quando se é jovem, tem-se naturalmente mais energia para explorar o mundo. Nesse sentido, pode-se dizer que essa idade é entre os cinco e os doze anos, a idade do “porque não?”.

Alice: Como é que consegue ser tão criativo com a sua idade?

E. de Bono: Mantenho o hábito, o interesse, a motivação de ser criativo e desenvolvo um método para isso. É a capacidade de ser curioso acerca das coisas e acerca das possibilidades. Eu desejo, de facto, ser criativo. Se ensinamos segundo os outros, basta ser-se um professor. Se se define o que se ensina, tem que se ser criativo. Tenho que definir os métodos da criatividade.

Alice: Nasceu em Malta. Conhece Corto Maltese, o herói de Hugo Pratt que também aí nasceu, se bem que na ficção, em Malta? Acha que os piratas, ou os ladrões são mais criativos do que as pessoas comuns?

E. de Bono: É difícil de responder. De certo modo, a resposta é “sim”, mas…

Alice: Eles não estão a seguir as regras…

E. de Bono: Eles estão fora das regras. Por outro lado, pode dizer-se que a verdadeira criatividade é quando se está dentro das regras e se faz com que as regras trabalhem a nosso favor.

Alice: Acha os cães mais criativos do que os gatos?

E. de Bono: Os cães desejam obviamente explorar mais e é possível treinar os cães para fazerem mais coisas.

Alice: Mas a curiosidade matou o gato…

E. de Bono: Os gatos são um pouco como os burros. Os burros são tão inteligentes que não permitem ser treinados. Parecem estúpidos, mas são inteligentes.

Alice: Já viajou por muitos países em todo o mundo. Acha que os japoneses são mais criativos que os suíços?

E. de Bono: Os japoneses aprendem a jogar o jogo. Fiz muito trabalho no Japão e se lhes dizem que o jogo é a criatividade, eles aprendem o jogo da criatividade e jogam-no muito bem. Para eles, a criatividade não é quebrar as regras do jogo, é aprender as regras do jogo da criatividade. Outra característica dos japoneses é que eles levam muito a sério as novas ideias. Eles precisam de ideias boas e sabem que apenas essas vão funcionar. Mesmo que não comecem por ser mais criativos por natureza, levam mais a sério as ideias novas.

Alice: Qual dos seus seis chapéus do pensamento está a usar neste momento?

E. de Bono: Provavelmente, o chapéu branco, para tentar responder às suas questões com base no conhecimento.

Alice: Que chapéu deveria eu usar enquanto faço as perguntas?

E. de Bono: Provavelmente o chapéu verde.

Alice: Acredita em Deus?

E. de Bono: Quando é preciso.

Alice: Deus é criativo ou apenas criador? Que chapéu do pensamento usaria Deus?

E. de Bono: Vou-lhe revelar uma coisa interessante sobre Deus: Deus não pode pensar. Deus não pode pensar porque quando se tem um conhecimento perfeito fora do tempo, não se consegue passar de um sistema cognitivo para outro melhor, porque se está lá no início. Então Deus não pode pensar.

Alice: Concorda com James Webb Young, que diz “As ideias são novas combinações de velhos elementos”?

E. de Bono: Honestamente, acho que sim, porque se uma ideia não tiver elementos velhos, nunca a poderemos ter.

Alice: Ou reconhecê-la.

E. de Bono: É uma questão de abandonar velhos padrões e entrar em novos, sim.

Alice: A destruição é o primeiro passo para a criatividade?

E. de Bono: Não. O que considero um desafio é passar ao lado do que já existe. Não temos que destruir, apenas passar ao lado.

Alice: Mr. Edward de Bono, tenho 16 livros escritos por si.

E. de Bono: Isso é bom.

Alice: Nem por isso, o senhor já escreveu 62.

E. de Bono: Ainda é nova…

Alice: Há um de que gosto bastante: “How to be more interesting”. Quero fazer-lhe algumas das perguntas que lá coloca ao leitor. Mas antes diga-me: o que é que acontecia se vivêssemos até aos duzentos anos?

E. de Bono: Se pudéssemos viver até lá? Acho que a educação acontecia mais devagar, provavelmente começávamos a ir à escola com vinte anos; teríamos uma vida de trabalho durante cinquenta anos; e depois teríamos uma reforma muito construtiva e interessante, durante a qual não trabalharíamos por dinheiro, mas faríamos coisas interessantes para nós.

Alice: O que é que acontecia se em cada mão tivéssemos sete dedos em vez de cinco?

E. de Bono: Teríamos novos instrumentos musicais de corda, diferentes instrumentos de sopro…

Alice: E cada dedo podia ter o nome de um dia da semana.

E. de Bono: É verdade.

Alice: Se uma pessoa casasse, em qual deles usava a aliança? No sábado? Na sexta-feira? No dia da semana em que tivesse casado?

E. de Bono: Na segunda-feira, para começar bem a semana.

Alice: Uma estalada com sete dedos magoaria mais?

E. de Bono: Pelo contrário. Porque se a pressão for espalhada numa área maior, é menor. Olhe, estrangular pessoas seria mais fácil.

Alice: Não tinha pensado nisso. E haveria mais ladrões?

E. de Bono: Para os polícias seria mais fácil, agarravam com mais facilidade os ladrões. Mas os ladrões não seriam melhores a roubar, porque quandos metiam a mão no bolso de alguém, os dedos metiam-se à frente uns dos outros.

Alice: E jogar às cartas ou xadrez?

E. de Bono: Nos jogos de cartas seria bom para fazer batota. No xadrez, não, derrubavam-se as peças do adversário no tabuleiro.

Alice: Se tivéssemos sete dedos, seríamos crianças até os catorze anos?

E. de Bono: Podia ser.

Alice: Sabe o que é que um frigorífico e um gato têm em comum?

E. de Bono: Podem ambos guardar peixe. E leite também.

 Alice: Há mais coisas: existem em diferentes formas e cores.

E. de Bono: Ok. Ambos passam a maior parte do tempo a dormir. E a conseguirem que as pessoas façam coisas por eles.

Alice: Outra coisa que têm em comum são os ronrons que emitem e uma esperança de vida de cerca de quinze até vinte anos. Em “How to be more interesting” pergunta aos leitores: “que fruta escolheria para descrever a Madonna?”

E. de Bono: Deixa-me pensar… uma cereja.

Alice: Que edifício descreveria George W. Bush?

E. de Bono: Alcatraz.

Alice: Que animal escolheria para descrever Robert de Niro?

E. de Bono: Um boxer.

Alice: E que flor escolheria para descrever a Madre Teresa de Calcutá?

E. de Bono: Boa pergunta… um malmequer.

Alice: Pode dar uma definição criativa de banana? Eu tenho uma: a banana é a fruta dos preguiçosos.

E. de Bono: Uma banana é… aquilo que está dentro de uma casca de banana. Todos sabemos o que é uma casca de banana, temos que pôr qualquer coisa lá dentro.

Alice: Como é que define criativamente uma árvore?

E. de Bono: Uma árvore é um conglomerado de ervas.

Alice: Aceitaria que uma árvore é uma sombra verde?

E. de Bono: Isso é poético.

Alice: Tem uma definição criativa de pinguim?

E. de Bono: É uma das primeiras feministas, porque põe o marido a tomar conta dos ovos enquanto vai à pesca.

 Alice: É difícil ser criativo sempre, não é?

E. de Bono: Sim. Às vezes não se quer necessariamente sê-lo.

Alice: Por exemplo, se quiser oferecer flores a uma mulher, sem lhe oferecer flores, o que lhe oferece?

E. de Bono: O problema em oferecer-se qualquer coisa é que não somos nós a pensar, temos que pensar no que a outra pessoa quer. Ser criativo é descobrir o que o outro verdadeiramente quer.

Alice: Porque é tão difícil ser simples?

E. de Bono: É difícil ser simples porque, muitas vezes, para se ser simples é preciso repensar e reestruturar o que se está a fazer, não apenas remover peças. Se fosse só cortar era muito mais fácil.

Alice: O que faz o seu coração bater mais depressa?

E. de Bono: Raparigas bonitas.

fragmentos da entrevista dada no Inverno de 2004 / fotografia de Steve Stoer

 

Sobre Maria João Freitas

Graças às palavras, às vezes sou Alice e faço perguntas sem parar. Outras, sou a namorada (platónica, esclareça-se) de Wittgenstein. Quase sempre, penso que tenho a sorte de viver da (e na) escrita. Porque escrever pode ser triste, mas é melhor que ser feliz.

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9 respostas a Edward de Bono & Alice

  1. adelia riès diz:

    Tem fôlego! 😀 Gostei muito

  2. António Barreto* diz:

    Fiquei com água na boca. Fantástico!

    • Maria João Freitas diz:

      António Barreto com asterisco,
      Foi de facto fantástico ter a oportunidade de entrevistar Mr. De Bono, no final de uma conferência. Ele estava bastante cansado, mas comportou-se como um paciente cavalheiro perante a incessante curiosidade da Alice.

  3. Pedro Bidarra diz:

    Que maravilha. Já me tinha esquecido desta.

    • Maria João Freitas diz:

      Pedro,
      A Alice teve muita sorte. Todos os entrevistados sabiam o caminho para o país das maravilhas.

  4. Saudades da “Alice”.

    • Maria João Freitas diz:

      Pedro,
      A quem o dizes. Que tal publicares aqui, um destes dias, o teu maravilhoso texto sobre as Alices no cinema, que escreveste su misura para a nossa Alice em versão digital?

  5. nanovp diz:

    Um “tour de force” maravilhoso….

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