Escrever

É fodido: preparem-se. Ganho a vida a escrever há 24 anos – comemoro as bodas de prata em 2015. Já escrevi relatórios, estatutos de associações, discursos, acções de formação, eventos, galas, poemas, contos, ensaios, livros de não-ficção, guias de cinema, críticas, entrevistas, reportagens, notícias, perfis, obituários, documentários, mini-séries, séries televisivas, telefilmes, curtas-metragens e longas-metragens para cinema. A menos que todos os que escrevem com ética, coração, talento e sentido comunicativo percebam as mudanças profundas da última década no jornalismo, guionismo e, arrisco dizer, na literatura, a palavra escrita seguirá o caminho dos pterodáctilos. Isto não significa menor qualidade e exigência. Pelo contrário: a médio-prazo, apenas a escrita da maior qualidade e exigência conseguirá sobreviver. Seja pelo crowdfunding, a subscrição de conteúdos únicos e verdadeiramente diferenciadores, os serviços de alerta noticioso em tempo real para plataformas móveis com acesso exclusivo a desenvolvimento profundo nas 24 horas seguintes por especialistas a escolher pelo próprio consumidor ou, admito,a epifania de um ou outro administrador mais esclarecido.
Ao contrário do que defendem os profetas do infotainment, o caminho lucrativo não será a massificação, mas a diferenciação massiva da exclusividade. Tratar cada leitor como um leitor único e singular, essa é a chave do futuro. Não o subestimar é o primeiro passo para a rentabilidade. Despedir jornalistas cujo primeiro critério sempre foi não negligenciar a inteligência do leitor é o primeiro passo para a falência.
Um jornalista “jovem”, “barato” e “certinho” não serve para nada, apenas adia o problema. E cobrar conteúdos jornalísticos que não incluam o ensaio cultural com tomates, agitador do status-quo, a grande reportagem pensada e escrita por gajos e gajas do nível do Paulo Moura, da Alexandra Lucas Coelho e do Pedro Rosa Mendes, ou perfis pensados, investigados e redigidos com tempo, rigor e criatividade, é o derradeiro prego no caixão. Portanto: fight, fight against the dying of the light.

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.
Esta entrada foi publicada em Escrita automática. ligação permanente.

5 respostas a Escrever

  1. Sim, sem dúvida… E haverá sempre o oásis do Escrever é Triste.

  2. Respire-se a frescura do oásis. E escreva-se!

  3. Maria do Céu Brojo diz:

    Escrever é preciso!

Os comentários estão fechados.