Gaja tansa…

POEMA DA MULHER MANSA

À mulher mansa, gaja tansa, dá-se música
e ela dança – a mulher mansa merece tanga.
Pode-se mentir que a bichinha nem ai nem ui,
pode dizer-se-lhe fui ali quando não, não fui.
Ninguém sabe desperceber melhor do que ela,
raio de manso mistério, luz escura de uma só vela.
À mulher mansa põe-se um par de cornos vezes cem,
e mesmo à frente dos olhos também, não é meu bem?
A mulher mansa não é só bailarina, não é só cega,
a mulher mansa tem uma coisa de puta, mulher, amante
ou amiga, filha ou irmã, nunca se nega,
ou será uma coisa de cão? Rola, deita no chão, dá a pata
linda menina, agora já chega, não seja chata.
A mulher mansa muito de quando em vez
faz drama para não deixar crescer a chama.
Se a mulher mansa se chateia, cuidado, incendeia.

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.
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3 respostas a Gaja tansa…

  1. Virgem Maria, mansa pomba gloriosa, oh quão chorosa… já Gil Vicente escrevia no Auto da Alma.

  2. A coisas que você sabe de cor, Manuel Herege Fonseca…

  3. Maria do Céu Brojo diz:

    Tal qual!

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