Intimado, respondi a uma sindicância. Triste figura

 

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Foto de juventude tirada já na expectativa de anos mais tarde vir a responder a um inquérito

O Francisco José Viegas, para o que lhe havia de dar, ordenou que eu respondesse a uma sindicância da sua renovada e agora trimestral LER. Mandou-me 25 perguntas e eu respondi-lhe, por escrito, em papel de 25 linhas, se é que alguém ainda sabe o que isso é. Está na página 144 – a última – da revista que acaba de sair o que agora fica aqui também.

sindicância

– Um livro que não leu.
O romance de Jean-Luc Godard. O facto de ele o não ter escrito é inaceitável como desculpa.

 – O(a) autor(a) que mais o irrita.
Shakespeare. Podia ter deixado alguma coisa por inventar. É inadmissível um tipo ter feito uma literatura sozinho: dos sonetos a Macbeth, de Lear a Hamlet.

 – Que frase tatuaria se o obrigassem?
“… Noite, meu amor,/ ó minha vida, eu nunca disse nada./ Por nós, por ti, por mim, falou a dor./ E a dor é evidente — libertada.” Odeio agulhas, ia doer que se fartava, mas por menos do que a eternidade não me tatuo.

– Um exemplo de beleza.
Um poema, “The First Day”, da Christina Rossetti. É preciso ser um bocadinho achavascado para não se chorar logo aos dois primeiros versos: “I wish I could remember the first day, / First hour, first moment of your meeting me…Que merda é a beleza se não houver memória na polpa dos dedos?! 

– Um exemplo de elegância.
As cartas que Sophia de Mello Breyner escreveu a Jorge de Sena, lucidíssima harmonia. 

– Um exemplo de fealdade.
Não há nada mais hediondo do que o horror de “Heart of Darkness”. Eppur si muove. 

– Em que país gostaria de ter nascido?
Em Patusan. Ter nascido de irrepreensível fato branco, já encostado à lenda. 

– Em que país gostaria de morrer?
Em Portugal. Grande país para morrer. Deviam fazer-se excursões. 

– A que político nunca daria o seu voto?
Bem me farto de ler o meu “Primo Basílio”, mas acabo sempre a votar num “alto, magro, vestido todo de preto […] pescoço entalado num colarinho direito.” Percebo tanto de política e não percebo nada de Eça.

– Que proibição alimentar lhe seria mais custosa?
Proibirem a cabeça de garoupa grelhada, olhos incluídos.

– Quem lhe suscita inveja?
Tipos jovens com filhos pequenos. Lembro-me de como estava tudo no sítio. Tinha então a plenitude, a sintonia do animal com a sua natureza.

– Um passeio no parque ou uma noite na ópera?
Noite no parque dancin’ in the dark: até eu seria Astaire, se, saia branca plissada, tu fores Cyd Charisse.

 – Cerveja, vinho tinto, vinho branco ou whisky?
Vinho tinto. Às vezes branco. Um impenitente dry-martini em certos fins de tarde no Verão: só não é Bogart quem não quer.

– A música que nunca lhe sai da cabeça.
Quando eu era pequenino… Ainda mal abria os olhos e já era para te ver.” Compensa-me da falta de vocação para ter e cumprir um destino.

– Um insulto.
Prefiro as respostas aos insultos. A melhor que ouvi foi nas “Recordações” do saudoso João César: “Panilas, o meu marido? Havias de ver os calos que eu tenho nos beiços da cona, por causa dos colhões do meu marido, ouviste?

– O palavrão que usa mais vezes.
Há dois. Faltasse um, faltasse o outro e não haveria meninos em Portugal.

 – O fim de semana ideal.
Pode ser dentro de um filme? No “To Catch a Thief” a guiar o Sunbeam Alpine Sports do Cary Grant, e a fazer um picnic com os impossíveis olhos azuis de Grace Kelly, o comovente colo dela ali mesmo ao lado. 

– O lugar ideal para passar férias.
 Num ovni. Férias cósmicas. Será que se levam livros, Balzac, Rimbaud, Borges, um romance parvo, para as praias galácticas? 

– A sua finest hour.
Demasiado cedo. Tinha 20 imparáveis anos. Larguei pátria e família para dançar a independência de Angola. Deus, assustado, já antes batera as asas. Tinha 20 anos, umas jeans, duas t-shirts, um par de chinelos idealistas.

– Um jogador de futebol.
Eusébio da Silva Ferreira. Num tempo em que os automóveis ainda só tinham 4 velocidades, já ele tinha a sexta. 

– O que escolheria para última ceia?
A Scarlett Johansson do recentíssimo “Under the Skin”. Cá nos havíamos de arranjar.

– Que livro o impressionou mais recentemente?
Le Bordel des Muses”, de Claude Le Petit. Uma coisinha poética do século XVII. É mais, como dizer, histriónico, do que as cartas de Joyce à amada. Só um excerto:
Entesem, enrabem, fodam

Sem medo que eu vos censure jamais;
Fodam tudo, mas sofram também,
Se no outro mundo foderem
O que nós neste fodemos mais.

– Um disco eterno.
Toda una vida”, de Antonio Machin. Disco mulato, como mulata é a fusão da vida preta e branca que nós levamos. 

– Três filmes que gostaria de rever sempre.
The Searchers”, “Pierrot le fou”, “Ruggles of Red Gap”. E não há cá converseta justificativa. 

– Um epitáfio.
É mais escuro do que eu pensava.

LER

O inquérito vem, na LER, acompanhado de uma referência biográfica que me dá como nascido em Luanda. É lenda. Nasci numa aldeia beirã, Vale de Madeira. Em Luanda, aos cinco anos de idade, a 29 de Junho, dia de São Pedro, limitei-me a renascer para viver uma centrífuga e subversiva vida extra-terrestre.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

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16 respostas a Intimado, respondi a uma sindicância. Triste figura

  1. mónica diz:

    “Ter nas­cido de irre­pre­en­sí­vel fato branco, já encos­tado à lenda” Patusan deve ser na América Latina ;))) aka! (o que queria dizer é que a frase entre aspas é bonita)

  2. Tem-se vontade de ser Fonseca.

  3. jcpessoa1 diz:

    Manuel (Manel, para ficar mais à-vontade…), há momentos que me irrita ler o que tu escreves!
    Fico furioso com tão grande criatividade.
    Fico com vontade de te chamar “açambarcador”, ou manipulizador, ou totalizador. Enfim, uma data de palavras que até nem existem!
    No fim, nunca perco a oportunidade de ler tudo o que escreves e publicas.
    Faço ideia que não terás dentro das gavetas de tua casa.
    Se um dia entrares em casa e encontrares tudo remexido, fui eu!
    No final, Manel (no melhor pano cai a nódoa…), tu erraste em relação à velocidade do Eusébio.
    Ele não tinha nada 6 velocidades, ele tinha 7!
    Desculpa, mas tinha de te desmentir…
    Grande Abraço Mermão Beirão (também bebes licor?)

    João Pessoa

    P.S.- Quero ver o que os outros vão dizer, dessas tuas respostas sem sentido único…

    • Hey João! Johnny! O segredo do Eusébio não era ter 6 nem 7 velocidades, o segredo dele era não ter carta, meu kamba. Condução linda, poética. E obrigado pela tua generosidade maluca. Temos é de fazer o intercalar.

  4. Assim, sim: isto é um gosto.

  5. Jorge Silva diz:

    Nascido para responder ao inquérito (e que extraordinária foto!).

  6. Maria do Céu Brojo diz:

    Belíssimas respostas. E depois, aquela de ser beirão como eu.

  7. nanovp diz:

    Parece-me que ainda haverá muito a descobrir por detrás da cara de menino maroto da fotografia…

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Praticamente nada, meu caro Bernardo. Nem o que vês é já o que “gets”.

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